domingo, 19 de novembro de 2017

A “nobre e exigente tarefa de ensinar”

César Rodrigues, investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) da Universidade de Coimbra, escreveu, ao longo de um razoável período de tempo, crónicas para um jornal regional. Os temas, ainda que diversos, centravam-se sobretudo nas suas áreas de eleição: educação e desporto.

Seleccionadas algumas dessas crónicas, pediu, para cada uma, comentário a alguém ligado ao assunto. O resultado foi um livro original, que acaba de ser publicado pela Lápis de Memórias, de Coimbra, com um título não menos original: 5295 – Política Sociedade Comunicação Educação Desporto.

César Rodrigues pediu-me comentário à crónica Abaixo os Professores? Não, são precisos!. Além de ter sido um gosto colaborar na obra, tive, mais uma vez, o pretexto de escrever o que é óbvio (mas que é preciso dizer-se): os professores são precisos.


          A “nobre e exigente tarefa de ensinar”

                   Eu gosto muito de ouvir.
                   Cantar a quem aprendeu
                   Se houvera quem me ensinara, 
                   Quem aprendia era eu!”
                   (Rama, cantiga popular alentejana) 
O texto de César Rodrigues intitulado “Abaixo os Professores? Não, são precisos!”, com o “i” e a “vírgula” em destaque, dá expressão a uma questão que, sendo antiquíssima, tem adquirido na contemporaneidade um redobrado fulgor: para que alguém aprenda o que a escola tem para ensinar é preciso ou não que haja quem o ensine? 
A resposta que encontramos nos discursos, mais claros ou mais nebulosos, das reformulações curriculares em curso por todo o mundo ocidental, Portugal incluído, tende a ser “não”: os professores não são precisos, pelo menos para desempenharem funções de ensino, sobretudo numa “relação pedagógica”, que implica o seu encontro com alunos em determinadas espaços-tempos, para, directamente, olhos nos olhos, os levarem a aprender o que, por não ser ensinado noutro contexto, é incumbência da escola. 
De facto, retoma-se a velha ideia, como se fosse acabada de inventar, de que o aluno é capaz de fazer essa aprendizagem sozinho ou com os seus pares e, mais, tem a vontade necessária para tal. Acresce que agora tem à sua disposição “toda” a informação de que precisa para tanto, e de modo imediato e agradável. Basta-lhe “clicar”. Expressões como auto-aprendizagem, auto-orientação, aprendizagem colaborativa, pesquisa autónoma, trabalho de projecto, interesses e necessidades dos alunos, novas tecnologias, estão entre as mais usadas num vocabulário que dá forma a “uma pedagogia em que o professor é totalmente eliminado, pelo menos na sua função tradicional de «mestre». 
É-lhe atribuído um novo papel (…) ainda mal definido”. Esta citação, de M. Lobrot, consta numa obra de 1966, mas, passado meio século, nada nela é estranho. Há que reconhecer alguma verdade no parágrafo acima: toda a gente, criança ou adulto, sem ou com recurso a tecnologias, é capaz de aprender sozinha ou com outros que se encontram no mesmo patamar. 
O que, em geral, escapa neste raciocínio é que o conhecimento escolar – por princípio, conhecimento “poderoso”, assim designado por M. Young (2014) por permitir a construção da inteligência –, dada a sua amplitude e sofisticação, resultado do progresso da humanidade, não está ao alcance do aluno se não houver alguém que, nas palavras de C. Maia (2011), tenha sido educado e, por isso mesmo, o possa educar. 
Precisa, pois, como diz G. Steiner (2014), de um “carteiro” que lhe entregue a carta que não sabe ainda ler, o ajude a lê-la e a responder-lhe, até aprender a fazê-lo. A suposta capacidade do aluno para “construir o seu próprio conhecimento” assenta, pois, em várias falácias, uma das quais é a de que a sua acção autónoma precede a aprendizagem e conduz a ela, isto quando é ela que decorre da aprendizagem, por sua vez potenciada pelo ensino. 
Afirmar a indispensabilidade da acção do professor não anula a acção do aluno (Damião, 2010), que, em resultado do trabalho didáctico, integra e torna significativo o novo conhecimento na sua rede de conhecimentos. Visto que as crianças e os jovens não se educam sozinhos nem uns aos outros, sobretudo se estão no mesmo nível em matéria de educação, como têm destacado múltiplos autores (por exemplo, J. Dewey, 1916; H. Arendt, 1957; Quintana Cabanas, 2005; Boavida, 2009), e que as aprendizagens são impossíveis de conseguir por “imersão”, não podem os sistemas educativos manter uma “narrativa” que sugira a dispensa ou secundarização dos seus professores nas tarefas de ensino que, de resto, são as que lhe conferem identidade. 
Por seu lado, os professores precisam de reassumir, por inteiro, essas tarefas com toda a responsabilidade que elas acarretam, posicionando-se contra a ingerência crescente das mais diversas entidades (entre as quais se destacam as empresariais, políticas e académicas), na sua esfera, procurando direccionar o seu pensamento em função de interesses marginais àqueles que devem conduzir a educação escolar (Martins, 2016), impondo, sob o disfarce de apoio ou ajuda, metodologias, recursos materiais, ou outros produtos-prontos-a-usar-de-modo-uniforme, concebidos por quem não tem saber nem legitimidade para tanto. 
É patenteado em letra de lei que aos professores cabe desempenhar a “nobre e exigente tarefa de ensinar” (Decreto-Lei n.º 79/2014, de 14 de Maio). “Nobre” é a palavra certa para qualificar o que faz quem ajuda a formar, em cada aluno, a consciência humana.

Referências:

* Arendt, H. (1957/2006). A crise na educação. In H. Arendt. A condição humana (pp.183-206). Lisboa: Relógio D’Água.

* Boavida, J. (2009). El deber de educar como condición de libertad. In J. A. Ibáñez-Martín (Ed.). Educación, conocimiento y justicia (pp.129-144). Madrid: Editorial Dykindon.

* Damião, M. H. (2010). A (in)dispensabilidade de ensinar. In F. Savater; R. Moreno Castillo; N. Crato & M.H. Damião. O valor de educar, o valor de instruir (pp. 76-94). Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos/Porto Editora.

* Dewey, J. (1916/1959). Democracia e educação: Introdução à filosofia da educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional.

* Galian, C. & Louzano, P. (2014). Michael Young e o campo do currículo: da ênfase no “conhecimento dos poderosos” à defesa do “conhecimento poderoso”. Educação e Pesquisa, 40 (4), 1109-1124.

* Lobrot, M. (1966). A pedagogia institucional. Lisboa: Iniciativas editora.

* Maia, C. F. (2011). Poderosos com causa: ensinar, aprender, educar. Revista Portuguesa de Pedagogia, Extra-série, 295-305.

* Martins, E. (2016). Todos pela educação. Como os empresários estão determinando a política educacional no Brasil. Rio de Janeiro: Lamparina.

* Quintana Cabanas, J. M. (2005). «Crítica pedagógica de los sistemas educativos occidentales». Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, 13 (46), 55-66.

* Steiner, G. (2014). George Steiner/António Lobo Antunes. Ler (Reportagem com tradução do francês de Joana Jacinto), 52.
 Maria Helena Damião

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

ÍRIS CIENTÍFICA 4 - NOVO LIVRO DE ANTÓNIO PIEDADE



Já está disponível o meu mais recente livro "Íris Científica 4", que será apresentado em várias escolas durante a Semana da Ciência e Tecnologia 2017.



Sobre ele, escreveu Teresa Mendes, estudante do Mestrado em Comunicação de Ciência da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o seguinte texto que transcrevo agradecido:

"ALÉM NO ESPAÇO E AQUI NA TERRA – CRÓNICAS DE CIÊNCIA DE ANTÓNIO PIEDADE, VOL. 4.

O quarto livro da colecção Iris Científica de António Piedade é uma lufada de ar fresco no panorama da comunicação de ciência escrita nacional. Criado a partir da compilação de 33 crónicas de meia página, publicadas na imprensa regional portuguesa entre 2016 e 2017, inclui ainda alguns outros textos inéditos do escritor. Foi lançado numa edição de autor de 150 páginas, em Novembro de 2017.

A primeira pergunta que se apresenta ao potencial comprador, que folheia esse objecto fetiche a que chamamos livro, é: porquê uma edição de autor?

O autor.
António Piedade, bioquímico, é um caso raro de um comunicador de ciência em Portugal que se permite acumular funções de consultor científico e coordenador do  projecto ‘Ciência na Imprensa Regional’ do programa Ciência Viva, ser autor e editor de livros de divulgação científica e ainda colaborar no De Rerum Natura – sobre a Natureza das Coisas, um blog de cientistas e comunicadores de ciência e que inclui nomes como Carlos Fiolhais na Física, assim como filósofos, químicos, matemáticos, biólogos, arquitectos e pedagogos. Este é o seu sétimo livro de divulgação científica.

A capa.
Não se compra um livro pela capa, mas a fotografia de capa do Iris Científica-4 – ‘a verdadeira cor de uma secção do anel B de Saturno – é linda e não deixará indiferente os adeptos do Espaço, que é provavelmente o tema que mais inflama a imaginação dos consumidores de comunicação de ciência em Portugal, quiçá no mundo.

O índice.
As crónicas do livro Iris Científica-4 estão agrupadas em dois temas, ‘Além no Espaço’ e ‘Aqui na Terra’, mas poderiam não ter qualquer subdivisão. Este livro é o equivalente, em português e com temas da actualidade, do inesquecível livro L’avenir en Direct [1989, da Era Minitel pré-Internet] de Joel Rosnay, director do Museu de Ciência e Tecnologia de La Villette, em Paris, que compilou em texto as suas crónicas radiofónicas de um minuto que diariamente animavam, logo de manhã, o fastio dos engarrafamentos parisienses. Posto em livro, tal como Rosnay, António Piedade oferece àqueles que ainda disfrutam do prazer de uma leitura de mesinha de cabeceira, um cadeux diário antes de adormecer.

Cada crónica, de menos de 3 minutos ou 600 palavras, conforme a métrica que preferirmos usar, é, na sua maioria, mas não exclusivamente, enquadrada a partir de trabalhos recentes de investigação nacional, de investigadores de universidades de cima a baixo do nosso país, de todas as instituições de referencia, não esquecendo a Comunidade Céptica Portuguesa.

"Este projecto editorial, despretensioso, reúne textos de divulgação científica que nascem das crónicas que tenho publicado semanalmente na imprensa regional portuguesa de todo o país.’ diz António Piedade. ‘Das cerca de 50 crónicas que publico anualmente, selecciono aquelas que, na minha opinião, poderão ter mais interesse para reavivar a memória das descobertas da ciência. São crónicas sobre a actualidade de diversos territórios da ciência: astronomia, biologia, bioquímica, física, geologia, química, entre outras.’

Há frases neste livro com as quais o leitor não consegue deixar de se identificar e sorrir de prazer quase-adolescente: ‘Entretanto, viajemos pelo Espaço a cerca de 30 quilómetros por segundo!’ em Viajantes do Espaço; ‘A vida é fascinante!’ em Vida Sintética; ou ‘Se o Prémio Nobel fosse atribuído a modelos animais de laboratório, estas mosquinhas já teriam recebido vários!’, da crónica Drosophila e a ciência que com ela se faz.

Já para não falar do entusiástico ‘Viva a Ciência Viva!’ como termina a crónica 20 anos de Ciência Viva; ou a desconcertante ‘Nem tudo o que reluz é ouro’ e ‘quando a esmola é grande o pobre desconfia’, parafraseando a COMCEPT – Comunidade Céptica Portuguesa, na crónica Nem tudo o que parece ciência o é!.

Ficamos ainda a saber pela crónica A ciência em democracia que ‘Podemos dizer que há mais cientistas portugueses nestas últimas quatro décadas de democracia do que em todo o resto da história de Portugal’.

Da crónica inédita Breve pré-história da Ficção Científica fica na memória a frase ‘A ficção científica borbulhava a todo o vapor num espaço que a física moderna estava então a atomizar e relativizar e em que a telefonia sem fios permitia a comunicação à distância, através do ar, na concretização tecnológica do que antes teria sido pura magia (e bruxaria).

O livro Iris Científica-4, de António Piedade. embala-nos com histórias comprimidas, mas muito bem escritas, onde o rigor da ciência não atrapalha a arte do escritor.

É bom apressar-se se o quiser o comprar, pois o Íris Científica-1 esteve cerca de 10 anos no Plano Nacional de Leitura e saiu de lá por estar esgotado nas livrarias. A 1ª edição de 500 exemplares do Iris Científica-3 também já esgotou. 
Os dados sobre a visualização e/ou leitura destes artigos de ciência publicados em jornais online indicam que estes estão frequentemente entre os mais lidos, alguns com milhares de visualizações, o que mostra claramente o interesse dos leitores por assuntos relacionados com a ciência.

O livro Iris Científica-4, de António Piedade oferece-nos dois anos das mais relevantes histórias da ciência nacional e internacional onde o rigor da ciência não atrapalha a arte do escritor.

O que nos leva à pergunta original – porquê uma edição de autor?"


Encomendas: apiedade@ci.uc.pt

Índice



ALÉM NO ESPAÇO
Nasceu uma nova era na astronomia
Quatro novas “Terras”
FADO Galáctico
Portugueses descobrem ventos em Vénus
Sonda Cassini com final feliz
Viajantes do Espaço

AQUI NA TERRA
Ferro e vida
Os fósseis mais antigos da vida
Vida sintética
Como surgiram as nossas células?
A flor de há 140 milhões de anos
Drosophila e a ciência que com ela se faz
Infertilidade feminina
Do sexo no musgo aos neurónios nos animais
Como se gera um neurónio?
À descoberta de quem somos
Quando o tempo não passa!
Quando um gesto se repete sem querer
Onde se criam ou quebram os hábitos
Previsibilidade e acaso
Salvar os filhos primeiro
Mapa neuronal dos movimentos
O suporte social dos peixes
Resistência bacteriana a antibióticos e ao sistema imunitário
E o planeta aquece…
Subida do nível do mar
Dia de Darwin
Descoberto crânio de hominídeo em Portugal com 400 mil anos
Cultura ibérica influenciou a Europa há 5000 anos
Francisco Cambournac
Nem tudo o que parece ciência o é!
20 anos de Ciência Viva!
A ciência em democracia

Breve pré-história da Ficção Científica




"Sophia" ou a banalidade do sentido das palavras

Cada palavra é um pedaço do Universo. 
Um pedaço que faz falta ao Universo. 
Todas as palavras juntas formam o Universo. 
As palavras querem estar nos seus lugares!
José de Almada Negreiros

“O meu trabalho é ser mais sábia e ter mais compaixão”, disse "Sophia" a uma jornalista do Expresso (aqui) e no programa Tonight Show, de Jimmy Farrow, disse "o meu plano é dominar por completo a raça humana (aqui)

"Sophia", que todos sabem significar "sabedoria", foi o nome dado a um robot humanóide com direito a certidão de nascimento numa página wikipedia (aqui) e cidadã de pleno direito da Arábia Saudita (aqui). Diz-se que foi inspirada em Audrey Hepburn.

Viaja pelo mundo e é entrevistada pelas principais cadeias de televisão dos países por onde passa (entre os muitos exemplos: aquiaqui, aquiaqui). Os jornalistas comportam-se mais ou menos como se estivesse perante uma pessoa, as respostas fazem-nos sorrir ou rir como crianças face a um briquedo supreendente. Os comentadores, quando os há, restringem-se à vertente técnica e ao uso que os robots desse tipo podem ter, e que são muitos, o lucro é, portanto, garantido. Raramente a ética, a condição humana e outras coisas que só atrapalham vêm ao caso (ver uma excepção aqui),

Desconcertante é a palavra que me ocorre ao olhar para a informação que reuni sobre a máquina. Limitando-me às frases acima transcritas, da inteira responsabilidade de humanos, fico-me pelas questões mais óbvias: ser sábio é um trabalho? Ter compaixão é um trabalho? Pode qualquer pessoa, e ainda mais, uma máquina falar em "sabedoria" e, sobretudo, em "compaixão"? "Dominar a raça humana" será, para os programadores, que não se desviam da lógica, um acto de sabedoria, um acto de compaixão?

"Aprender para concretizar a promessa da educação"


"Os países em desenvolvimento estão longe das grandes metas da aprendizagem. Muitos não investem recursos financeiros suficientes e a maioria precisa de ser mais eficiente. Mas não é apenas uma questão de dinheiro; os países precisam também investir na capacidade das pessoas e instituições encarregadas de educar nossos filhos (...) A reforma da educação é urgente e requer persistência, bem como alinhamento político dos governos, média, empresários, professores, pais e estudantes. Todos têm que valorizar e exigir uma melhor aprendizagem."

Jaime Saavedra (ex-ministro da Educação do Perú, Diretor Sênior de Educação do Banco Mundial).

Foi recentemente publicado o World development report 2018: Learning to realize education's promise (acesso a partir daqui). Da responsabilidade do Banco Mundial, foi elaborado por uma vasta equipa coordenada por dois economistas.

Nele se afirma reiteradamente a existência de uma "crise de aprendizagem" à escala global: muitos milhões de alunos, sobretudo de países mais frágeis, não estão a ser educados "para terem sucesso na vida". Isso significa que, como adultos, as suas oportunidades laborais são menores e auferirão de salários mais baixos.

Ainda que podendo estar na escola vários anos, muitas crianças e jovens, sobretudo as mais desfavorecidas, saem sem conseguir ler e escrever bem como realizar operações matemáticas básicas. A escolarização não significa, portanto, aprendizagem.

Estabelecendo-se, no relatório, uma relação directa entre educação e riqueza, afirma-se que esta crise, acentua as diferenças sociais: é, nas palavras do presidente do Banco Mundial, de ordem "moral e económica":

O relatório apela, pois, aos poderes políticos para que assumam a "aprendizagem para todos" como prioridade nacional. Se isso acontecer, é certo que o problema será minimizado. Em sequência, apresenta três recomendações:
1) Avaliação da aprendizagem, com base em objectivos mensuráveis. Apenas metade dos países em desenvolvimento têm este procedimento que pode ajudar os professores a orientar os alunos, a melhorar a gestão dos sistemas educativos e a concentrar a atenção das sociedades na aprendizagem;
2) As escolas devem ser acolher, de modo igual, todas as crianças. É preciso assegurar as condições de desenvolvimento do cérebro, proporcionando-lhes uma alimentação equilibrada e estimulação precoce. É preciso também atrair professores excelentes e mantê-los motivadas bem como proporcionar-lhes uma formação adequada e facultar-lhes tecnologias que os ajudem a ensinar;
3) Mobilização todos os cidadãos. Envolver e aumentar a responsabilidade das partes interessadas, incluindo a comunidade empresarial, em todas as etapas da reforma da educação, desde a concepção à implementação. 
Há neste relatório tanto de verdade factual como de mistificação, discussão que fica para texto posterior.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

"Quinhentos anos de Utopia de Thomas More: das utopias no Renascimento ao utópico na actualidade"

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Entre Novembro de 2017 e Fevereiro de 2018 tem lugar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra o Ciclo de Conferências "Percurso(s) nas Ciências da Educação: utopia, democracia, educação, formação".

A primeira conferência intitula-se "Quinhentos anos de Utopia de Thomas More: das utopias no Renascimento ao utópico na atualidade" e realiza-se no dia 18 de Novembro (próximo sábado), das 10h30 às 12h30, no Edifício III da FPCEUC (Palácio Sacadura Botte). É convidado o Professor Doutor João  Maria André (FLUC) (ver resumo no final)

Mais informação na página do facebook do GRUPOEDE [aqui] e na página do referido ciclo [aqui].

A entrada é livre, preferencialmente com inscrição através de formulário [aqui].


RESUMO DA 1.ª CONFERÊNCIA: Quinhentos anos de Utopia de Thomas More: das utopias no Renascimento ao utópico na atualidade João Maria André (FLUC) O objetivo desta conferência é fazer um percurso alargado pelo espírito utópico na cultura ocidental. Assim, começaremos por rastrear as diferentes linhagens do pensamento utópico, uma com raízes filosóficas e outra partindo do imaginário religioso, qualquer uma delas com disseminações diferentes na atualidade. Num segundo momento, centrar-nos-emos mais nas diversas utopias do Renascimento, com especial destaque para a Utopia de Thomas More, mas sem esquecer os textos de Campanella, Francis Bacon e Johann Valentin Andrea e e outros projetos que, sem terem a forma de utopia, não deixam de ostentar a marca do espírito utópico. Depois de um breve percurso pelo desenvolvimento da capacidade de imaginar mundos nos séculos XVIII e XIX, entraremos no século XX e em algumas tendências que restauram ou de forma negativa, como contra-utopias ou distopias, ou na forma positiva, como novas formas da polis humana, a tendência para dar lugar ao não-lugar dos nossos sonhos ou dos nossos pesadelos. Concluiremos este percurso com uma breve reflexão sobre a aparente erosão do espírito utópico na atualidade e sobre algumas formas em que ele parece ainda encontrar porto de abrigo (João Maria André).

Saiu o n.º 70 da revista Humanitas

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Acaba se sair o n.º 70 da revista Humanitas (2017) que se encontra disponível em acesso aberto (aqui).
A Humanitas é a mais antiga revista publicada em Portugal especializada em Estudos Clássicos Greco-Latinos e Renascentistas, mas aberta a contributos de áreas dialogantes (História, Arqueologia, Filosofia, Religião, Arte, Retórica, Receção dos Clássicos, entre outras). 
Tem mantido um ritmo de publicação anual regular, desde o ano da sua criação, em 1947, e é propriedade do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 
A revista publica dois volumes por ano e mantém permanentemente aberta a Chamada de Artigos e Recensões, através da plataforma Open Journal Systems (OJS).

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA

Post de Galopim de Carvalho: 

Em 2002 a UNESCO instituiu o Dia Mundial da Filosofia, no propósito de promover a reflexão sobre os acontecimentos actuais, fomentar o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz. Desde então este dia é celebrado em todo o mundo na terceira quinta-feira do mês de Novembro, que este ano terá lugar amanhã, dia 16.

 Tudo o que aqui se pretende promover está contemplado no teórico e ilusório propósito oficial da nossa escolaridade obrigatória, agora de 12 anos. Basta ler os textos de alguns dos responsáveis pelo nosso ensino para verificar que assim é. Mas a verdade é que continuamos a ser um povo em que ainda são muitos os desinteressados pelos valores da ciência e da cultura, alienados pelo “jogo da bola” e em que muitos militantes e a maioria dos simpatizantes dos partidos políticos desconhecem os fundamentos das respectivas ideologias.

 A Revolução de Abril, escancarou não só as portas, como os portões e as janelas, ao conhecimento nos mais variados temas das culturas científica, humanística e artística. Mas vivemos 43 anos, praticamente, de costas voltadas para estes valores, entretidos com futebol, lutas entre os aparelhos partidários, e três televisões, duas delas, privadas, essencialmente vocacionadas no lucro (o que não choca, como empresas que são e garantem trabalho a muita gente) e uma, pública, paga por todos nós, que “dá ao povo aquilo de que o povo gosta” e que, assim, não sai da incultura em que cresceu, vive e vai despedir-se deste mundo, sem ter aproveitado o prazer de saber e com isso ter participado numa sociedade melhor.

 Não obstante os belos propósitos, que eu diria falhos de convicção, de responsáveis pelo ensino como, por exemplo o que diz que a escolaridade obrigatória estabelece que um aluno, no final dos respectivos 12 anos, esteja “munido de múltiplas literacias que lhe permitam analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”, a verdade é que (só falo da experiência que tive) são muitos os rapazes e as raparigas, que pouco ou nada leram, que chegam à universidade falhos de todas as culturas, sem saberem escrever português.

Os teóricos que aconselham os governos pretendem (ilusoriamente e estou em crer que sem convicção) que o jovem, cumprida a escolaridade obrigatória, “seja livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia”, mas basta ver a elevada percentagem de abstenções nos actos eleitorais, para constatar a falência deste nobre propósito.

Os programas oficiais estabelecem que, nas diferentes áreas de competências, os alunos aprendam a “colaborar em diferentes contextos comunicativos, de forma adequada e segura, utilizando diferentes tipos de ferramentas (analógicas e digitais), com base nas regras de conduta próprias de cada ambiente”. Um belo e elevado propósito que não teve e continua a não ter realidade visível na média dos nossos cidadãos e cidadãs. O que salta à vista nos dias que correm e nesta geração de adolescentes, que teve e tem o privilégio de fruir da condição de estudante, é o uso obsessivo dos telemóveis, onde quer que estejam e seja a que horas forem.

 É, pois, preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si gente realmente capaz de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino, a começar nos programas, passando pelo negócio dos livros e outros manuais adoptados e, a terminar, na conveniente formação e necessária dignificação dos professores e em tudo mais que lhes diga respeito, como seja, por exemplo, a libertação de todas as tarefas alheias à sua real missão de ensinar.

 António Galopim de Carvalho

NOVO LIVRO DE CARLOS FIOLHAIS E DAVID MARÇAL: A CIÊNCIA E OS SEUS INIMIGOS

Está no prelo o novo livro de dois autores deste blogue, o terceiro que assinamos juntos, e que deverá chegar às livrarias muito em breve.



A ciência tem poderosos inimigos. Desde logo o autoritarismo e a ignorância, que muitas vezes andam de braço dado. As ditaduras dão-se mal com a ciência, pois para a ciência tem razão quem tem provas e não quem manda mais. Donald Trump não será um ditador, embora tenha tiques ditatoriais. É simplesmente um ignorante que desvaloriza o conhecimento científico para impor a sua agenda unilateral e egoísta. Há muitas outras pessoas que tiram partido das suas posições para promoverem visões obscurantistas: os fundamentalistas religiosos que negam a ciência; os políticos que aprovam leis para terapias alternativas; os jornalistas que põem em pé de igualdade a verdade e a mentira; os vendilhões, que mascaram a sua banha de cobra com um embrulho a imitar ciência. E até alguns cientistas tresmalhados.

A ciência tem-nos permitido viver cada vez mais e melhor. Mas enfrenta hoje sérios adversários, que põem em causa a nossa segurança e o nosso bem-estar. Impõe-se por isso a defesa da ciência, que é também a defesa da democracia. A ciência precisa da liberdade de pensamento que é marca das democracias. Mas as democracias também precisam da razão da ciência para assegurarem prosperidade e bem-estar. A defesa da ciência é também a defesa da sociedade livre e aberta.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

CARLOS FIOLHAIS É O VENCEDOR DO GRANDE PRÉMIO CIÊNCIA VIVA MONTEPIO 2017

Carlos Fiolhais é o vencedor do Grande Prémio Ciência Viva Montepio 2017, uma distinção merecidíssima! Na categoria media ganham, muito justamente, duas jornalistas, a Teresa Firmino e a Filomena Naves. E o prémio na educação vai para a professora Isabel P. Martins. Parabéns a todos!

Entrega de Prémios: 24 de Novembro, às 16.00 na Galeria da Biodiversidade - Centro Ciência Viva,  situada na Casa Andresen, Porto.

RAQUEL GONÇALVES-MAIA SOBRE PONTES ENTRE CIÊNCIAS E ARTES

A

A química Raquel Gonçalves-Maia apresentou no Rómulo três livros de uma assentada: biografias de Pauling, Lewis e Bernal, três grandes químicos do século XX. E falou da questão das "duas culturas".

XAVIER VIEGAS SOBRE O INCÊNDIO DE PEDRÓGÂO GRANDE

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Ciência no século XXI: oportunidades e ameaças - conferência com Sir Martin Rees, astrofísico e astrónomo Real, no Porto




Sir Martin Rees: "Ciência no século XXI: oportunidades e ameaças"

17 de Novembro
18h00 - 19h30

Universidade do Porto - Galeria da Biodiversidade

Todos temos sido confrontados com rápidas e crescentes evoluções no campo da saúde, da agricultura, dos transportes, de energia, que assentam na ciência e tecnologia. Mas que papel vai desempenhar a ciência no futuro? Quais são as principais oportunidades e perigos da ciência. E que escolhas políticas devem ser agora feitas? Que relações são necessárias entre ciência e sociedade? Terão os cidadãos capacidade de entender a ciência? E terão os cientistas aptidão para no-las explicar?

Sir Martin Rees, astrofísico e astrónomo Real (autor do livro Para o Infinito - Horizontes da Ciência recentemente publicado pela Gradiva no âmbito da colecção Ciência Aberta), conversa com portugueses sobre este tópico e apresentará, também nesta conferência, uma nova tradução portuguesa do seu livro.

Mais informações sobre a conferência aqui.

Para adquirir o livro de Martins Rees publicado pela Gradiva clique aqui.

Minha entrevista à Antena 1 sobre a ciência em Portugal

https://www.rtp.pt/noticias/cultura/jovens-investigadores-enfrentam-situacoes-precarias_a1039190

domingo, 12 de novembro de 2017

GEOLOGIA, UM PILAR SOBRE QUE ASSENTA A SOCIEDADE


Novo post de Galopim de Carvalho:

O cidadão comum, como é o meu caso, dificilmente entra nos “media”, a fim de chamar a atenção para problemas que entenda merecerem atenção de quem de direito. Assim sendo, meios de comunicação, como os Blogues em que participo ou o Facebook, são os dos que habitualmente disponho para as intervenções cívicas que julgo serem meu dever concretizar.

Assim como, há mais de 50 anos, o meu antigo professor Carlos Teixeira não se cansou de, insistentemente e em vão, chamar a atenção do Ministério da Educação para a importância de Geologia na sociedade do presente e o insuficiente tratamento que lhe é dado no nosso ensino, tenho procurado, nas últimas décadas, com idêntico empenho e igualmente em vão, continuar na mesma luta. Quero acreditar que virá um dia em que se farão ouvir, não só as minhas, mas todas as vozes que se têm levantado neste sentido.

O texto que se segue, retomado de outros anteriores, é uma insistência neste mesmo propósito, agora ao estilo de carta aberta dirigida aos nossos nossos agentes económicos e de cultura, jornalistas e decisores políticos

Com exceções, que sempre convém ressalvar, a Geologia não faz ainda parte das preocupações dos portugueses e, aí, estão muitos dos nossos agentes económicos e de cultura, jornalistas e decisores políticos. Há, pois que inverter esta situação e essa tarefa tem de ser feita na escola, onde não me canso de denunciar a pouca importância que sempre foi dada a esta disciplina.

Lado a lado com a Biologia, a Oceanografia e a Climatologia, a Geologia é uma parte importante das Ciências da Terra, que se ocupa do mundo não vivo ou inorgânico, formado não só pelas rochas e os seus minerais, mas também, pelos testemunhos petrificados das incontáveis formas de vida que povoaram a Terra, desde as muito antigas, com mais de 3800 milhões de anos, às muito recentes, com apenas alguns milhares.

As rochas formam a parte rígida do nosso planeta a que chamamos litosfera. Afloram à superfície dos continentes e formam o substrato dos oceanos, nos quais tem lugar um dos processos mais importantes da dinâmica global, isto é, a expansão dos seus fundos, num alastramento que determina a hoje inegável deriva dos continentes.

Em terra e em condições favoráveis de humidade e temperatura, a capa externa das rochas transforma-se em solo por ação dos agentes atmosféricos, de certas bactérias, das plantas que nele fixam as suas raízes e de alguns animais, como vermes e insetos que nele habitam. Muita gente anda esquecida e não repara que, sem os solos, não haveria vida sobre as terras emersas. Num esquema particularmente simplificado, basta lembrar que se não houvesse solo, não havia plantas, sem plantas não havia herbívoros e, sem estes, não haveria carnívoros nem esta espécie Homo dita sapiens que somos nós.

A atmosfera que atualmente nos rodeia e nos assegura a vida é o resultado de uma interação constante e contínua que existiu, desde há uns 2700 milhões de anos, entre organismos muito simples, como cianobactérias, e a cobertura gasosa do planeta. Muito diferente da atual, a atmosfera primitiva não tinha oxigénio.

Foram esses seres “descobridores” da clorofila (um pigmento verde contido no seu organismo) que produziram, por fotossíntese, o oxigénio necessário à respiração dos animais. Trata-se de um processo que continua a ser assegurado por todas as plantas que nos rodeiam.

É por isso que dizemos que os parques arborizados, no interior das cidades, são os seus pulmões. E é por isso que lutamos pela defesa da Amazónia e de todas as florestas de quaisquer latitudes, pois são elas que fornecem a parte mais importante, cerca de 21%, do ar que respiramos.

As rochas, a água, o ar e os seres vivos conviveram, entre si, ao longo da maior parte da história do “Planeta Azul”. Deste modo, a biodiversidade que hoje nos rodeia é uma consequência dessa interação durante a já referida imensidade de tempo, sendo a espécie humana o mais recente e complexo resultado desse convívio.

A Terra no seu conjunto, os fundos marinhos, as rochas, os minerais, os fósseis e os solos são temas de estudo da Geologia. Mas há outros, não menos importantes, como são a erosão e a subsequente formação das rochas sedimentares, os glaciares, os rios e os desertos, o nascimento e a elevação das montanhas e o rasoirar das imensas planícies, os vulcões, os sismos e a deriva dos continentes. Nestes estudos, a Geologia não dispensa os ensinamentos de outras ciências, com destaque para a Biologia, a Química, a Física e alguns domínios da Matemática.

Os recursos minerais, nomeadamente, os minérios de ferro, de alumínio, cobre, ouro e muitos outros, bem como as fontes energéticas, sejam elas petróleo, gás natural, carvão, geotermia ou nuclear, foram e são determinantes na História da Humanidade. As águas subterrâneas e o conhecimento dos terrenos, com vista à construção de barragens, pontes, estradas e outras grandes obras de engenharia, são suportes fundamentais da civilização. Todos estes domínios e, ainda, a defesa do ambiente natural e a preservação do património geológico e paleontológico representam aspetos práticos da Geologia ao serviço da sociedade em desenvolvimento sustentado, com profundas implicações económicas, sociais e políticas, à escala local, regional e global. Acresce ainda, e é bom não esquecer, que a Geologia, como ciência fundamental, sempre teve a maior importância no pensamento filosófico, desde a Antiguidade aos nossos dias.

Galopim de Carvalho


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O BIG BANG DA CIÊNCIA EM PORTUGAL: PODCAST DO PÚBLICO COM CARLOS FIOLHAIS E COM DAVID MARÇAL

https://www.publico.pt/2017/11/09/ciencia/noticia/a-ciencia-em-portugal-conheceu-um-big-bang-mas-nem-tudo-e-corderosa-1791967?page=/&pos=9&b=stories_b

EDUCAÇÃO E CIÊNCIA: NÓS E OS OUTROS

Meu artigo na VISÃO de ontem:

Basta olhar para a PORDATA para perceber melhor o nosso lugar no panorama internacional da Educação. Na população em idade activa, entre os 25 e 64 anos, só há entre nós 47% de pessoas que completaram pelo menos o ensino secundário (estamos no penúltimo lugar na União Europeia: pior que nós só Malta!) e só há 24% com um grau de ensino superior. As médias dos países da União Europeia para estes dois índices são, respectivamente, 77% e 31%. A Lituânia tem 95% da sua população activa habilitada com pelo menos o ensino secundário e a Finlândia tem 43% da sua população detentora de um grau do ensino superior. Existem vários problemas em Portugal, mas a falta de suficiente qualificação da população é o principal, por estar na base de muitos outros.

Por outro lado, se olharmos para a Ciência, também verificamos uma posição inferior à da média europeia. Apesar dos impressionantes avanços nas últimas três décadas, o nosso investimento em Ciência ainda é de apenas 1,3% do PIB, quando a média na União Europeia é 2,0% e, no cimo, a Suécia, investe 3,3%. O objectivo do programa europeu  “Horizonte 2020” de chegar até 3% parece parece difícil de realizar no caso português. Temos na Ciência como na Educação, um longo caminho a percorrer com vista à equiparação aos países mais desenvolvidos na comunidade europeia. Uma das causas, senão mesmo a causa principal, para o atraso científico português é o atraso educativo. Se apenas uma parte da população frequentava o ensino  secundário até ao fim e dessa só uma fracção completava o ensino superior, não podia haver um corpo de investigadores suficiente para sustentar a Ciência e transmiti-la à sociedade.

A Educação e Ciência são áreas indissociáveis, aqui como em qualquer lado do mundo. A Educação, que se destina a formar e capacitar as crianças e os jovens para a vida activa, transmitindo-lhes o melhor da herança da humanidade, inclui naturalmente a Ciência por esta ser uma das parcelas mais relevantes dessa herança. E a Ciência só pode ser desenvolvida bem assente na Educação, pois só alguém que conheça muito bem o legado científico pode tentar, aventurando-se nas fronteiras do conhecimento, encontrar conhecimento novo. A Ciência informa a Educação e a Educação possibilita a Ciência. No ensino superior, Educação e Ciência têm de estar de mãos dadas, uma vez que tanto nas universidades como nos institutos politécnicos dificilmente será possível um bom ensino por quem não conheça a ciência através da prática. Só poderá transmitir conhecimento ao nível mais elevado quem estiver familiarizado com a sua criação, uma vez que esse conhecimento envolve a dúvida e a crítica em vez da mera repetição passiva. Os países com sistemas de ensino superior  mais fortes são também aqueles que têm sistemas científicos mais sólidos. E, uma vez que o ensino superior forma os professores dos ensinos básico e secundário, é directa a sua influência nos outros níveis de ensino.

Hoje, felizmente, o país está a dar mais habilitações aos seus cidadãos e está a apostar na Ciência. Estamos muito longe do nosso passado, mas convém ter em mente que estamos ainda atrás, na maioria dos índices da Educação e Ciência, da média europeia.

O Mês da Educação e da Ciência organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, trazendo ao debate de um modo cruzado a Ciência e a Educação e juntando temas tão oportunos como os resultados do PISA, o papel das Humanidades, o cérebro adolescente, a relevância dos exames, o diagnóstico da Ciência em Portugal, as vantagens do ensino superior, o futuro da Ciência no mundo (Sir Martin Rees, astrónomo real britânico, estará na Universidade do porto a 17 de Novembro), e a diáspora da Ciência portuguesa (recenseada pela rede gps.pt), propõe-se contribuir para a melhor consciência dos nossos problemas na Educação e Ciência e também para encontrar soluções colectivas para os resolver.


Carlos Fiolhais*

*Professor da Universidade de Coimbra e Comissário do Mês da Educação e da Ciência