domingo, 27 de maio de 2018

"LOW COST"



Meu artigo de opinião publicado no “Diário as Beiras”(24/05/2018):
- V. Ex ª tem boa memória, sr. Maia?-
Tenho uma razoável memória.
- Inapreciável bem de que goza!”
(Eça de Queiroz)
Para não ser acusado do crime de plágio, sinalizo o título do pedagógico do artigo titulado “Low Cost” (14/05/2018), da autoria do médico Diogo Cabrita (mais adiante se verá o motivo de eu evocar a sua profissão), em que ele critica a escrita abreviada das mensagens enviadas por telemóvel pelos jovens da geração actual escravizados ao império das novas tecnologias de comunicação.
Por meu lado, temo (embora salvaguardado um possível e catastrófico exagero)  que ao ser perguntado a jovens coisas comezinhas sermos surpreendidos pela resposta: -“Um momento vou ver ao Google!”. Havendo, como tal, necessidade de lhes implantar no cérebro unidades centrais de processamento que preencham o vazio dos respectivos crânios. A época dos cyborgs, mesmo que escondida atrás da porta, deve andar a espreitar a decadência do Saber actual responsável pelo alarme que o prestigiado académico da Universidade de Coimbra, Aníbal Pinto de  Castro, já falecido, lançou, em 2005: “Não destruam. Não cedam. Não tenham medo porque a Universidade não pode ser uma instituição de caridade. Para isso há os asilos e a Mitra. Não pode ser um hospital de alienados”.
Num tempo em que esforçados estudiosos do “Mecanismo da Mente”, tomando de empréstimo o título de uma notável obra de Colin Blakemore, valorizam o papel da memória (de triste memória por causa de marrões que decoravam páginas inteiras de manuais escolares sem as entenderem), registada em engramas do córtex cerebral, as Belas-Letras encontram na profissão médica terreno úbere de gente que escreve artigos de opinião de forma que sai da vulgaridade, talvez, por lidarem com o sofrimento humano em que “a doença amplia as dimensões internas do homem” (Charles Lamb).
Falando de escritores médicos. Para além de António Lobo Antunes, que abandonou a profissão de médico, sendo hoje romancista laureado com valiosos prémios literários, ocorrem-me à memória os nomes de Júlio Dinis, Fernando Namora, Abel Salazar (figura multifacetada de outras artes: pintura e escultura) e  Miguel Torga, colho exemplo diferenciado em João Lobo Antunes, professor catedrático de Neurologia, falecido em 2016, diletante com crónicas reunidas em livros em que em belíssimas páginas redigidas com humanismo, elegância e fino recorte literário perpassam a sua vivência profissional da doença e da finitude da vida humana. Por esse facto, dele me tornei leitor, quase diria, compulsivo.
A arte, ou simples exigência em bem escrever, embora dependente da influência dos genes (os irmãos António, João e Nuno Lobo Antunes, disso são exemplo) passa, indubitavelmente, pelo gosto da  leitura de grandes obras literárias, não lidas, en passant, em resumos para desenrascar provas de avaliação com  prosa espartilhada entre linhas previamente definidas. Isto já para não falar de questões respondidas com cruzes, em idos de 52 do século passado, que julgo cunhadas de novidade em Portugal, durante a minha frequência do Curso de Oficiais Milicianos da Arma de Infantaria. Cruzes que hoje, no meio escolar do básico ao universitário, servem para ocultar o cemitério da santa ignorância lançando o rabo do olho ao teste do colega do lado, ou em copianço com sinaléctica de dedos previamente combinada.
Para além da mudança dos tempos e das vontades, como sentenciou Camões, enraízam-se hoje hábitos na juventude escolar nem sempre pelas melhores razões. Por vezes, até, pelas piores razões!

PALESTRA DE GALOPIM DE CARVALHO NO RÓMULO ADIADA

A palestra intitulada "Geologia e Cidadania", que o professor Galopim de Carvalho iria proferir no próximo dia 30 de Maio no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, inserida no ciclo "Ciência às Seis", foi adiada para data e hora a divulgar oportunamente.

TALES DE MILETO (c. 623-546 a.C.)

Que ao ensinar aos alunos o teorema de Tales, se lhes diga quem foi este filósofo que está nos alicerces da nossa forma de pensar.


Diz-se que a filosofia ocidental nasceu na Grécia, entre os séculos VII e VI a. C., quando alguns dos seus habitantes mais letrados esboçaram as primeiras tentativas de explicar o mundo que os rodeava sem recorrerem à mitologia, recurso esse que era a prática comum da época. Só meio século, depois, Pitágoras (circa 570-495 a.C.) deu o nome de FILOSOFIA a essa atitude mental.

Nascido em Mileto, cidade da Jónia, na Ásia Menor (atual Turquia), então colónia grega, Thales terá sido o primeiro pensador a romper com o ponto de vista religioso e, como tal, o primeiro filósofo ocidental. As datas dos seus nascimento e morte são incertas, sabendo-se, porém, com segurança, que ele viveu no período compreendido entre o final do século VII e meados do século VI a.C.

Todavia, há quem atribua que esta sua colocação em destaque resultou, sobretudo, da acção política que desenvolveu no propósito de unir as cidades-estados (“polys”, em grego), da Ásia Menor, numa confederação, fortalecendo-as face às ameaças de invasões de povos orientais.

Apontado por Aristóteles (384-322 a.C.) como o primeiro filósofo da humanidade, deve ser lembrado, sobretudo, por ter proposto uma nova visão de mundo cuja base racional, em sua opinião, era passível de ser repensada, reformulada e, até, substituída. Thales fundou, em Mileto, a renomada Escola Jónica e defendeu, como outros da sua escola, o materialismo monista, ou seja, explicação do mundo físico, aceitando que todos os seres, no sentido de objectos ou coisas, são compostos por um único elemento ou substância.

Este filósofo considerava a água como sendo esse elemento ou substância primordial, habitualmente referido por “princípio único” (“arkhe”, na versão grega). Segundo ele o mundo teria evoluído, por processos naturais, a partir desse elemento que caía do céu, que brotava das fontes, corria nos rios e formava os mares, e disse-o mais de dois mil anos antes do grande evolucionista Charles Darwin. Nessa convicção atribui-se-lhe o desabrochar do conceito de evolução.

Ao observar a natureza, incluindo o Universo visível, e os fenómenos naturais, Tales não só procurou o “arkhe”, para ele, como se disse, a água, como também a explicação de tudo o que os sentidos lhe traziam ao conhecimento, eliminando o sobrenatural, dando exclusividade à razão (raciocínio), tornando esse conhecimento acessível aos seus semelhantes.

Para alguns, a importância de Tales situa-se ainda no campo da matemática e da geometria, ao introduzir na Grécia noções próprias desta disciplina, trazidas do Oriente. Noções que desenvolveu e aperfeiçoou. Formulou dois teoremas importantes, que se ensinam nas nossa escola, sendo que um deles leva seu nome. Como astrónomo, as suas contribuições resultaram das muitas observações que realizou, tendo previsto um eclipse solar.

Entre os seus principais discípulos merecem destaque Anaximandro, Anaxímenes e Heráclito.

A. Galopim de Carvalho

"O PAPEL DO PAPEL": MEU TEDTALK DEM AVEIRO ONTEM

Ver a partir do tempo 1h02:

https://livestream.com/accounts/50006/events/8222164/videos/175458547

sábado, 26 de maio de 2018

DIA INTERNACIONAL DA LUZ


Meu artigo no último Das Artes entre as Letras:

A 16 de Maio de 2018 celebrou-se pela primeira vez em todo o mundo o “Dia Internacional da Luz”. Esse Dia, uma iniciativa global sob coordenação da UNESCO, o organismo das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura, vem na sequência do Ano Internacional da Luz, que decorreu em todo o mundo em 2015. O objectivo do ano e do dia da luz foi e é a valorização da luz, realçando o seu papel tanto na ciência e tecnologia como na cultura e na arte, um papel que tem consequências óbvias na educação e no desenvolvimento.

A luz, seja ela visível ou invisível, encontra-se por todos os domínios da vida humana, desde a medicina (lembre-se o papel do laser hoje em diversos procedimentos cirúrgicos para além das várias formas de imagiologia médica, que permitem com várias fontes de luz ver o interior do corpo ao sector da energia (por exemplo, as fontes fotovoltaicas são cada vez mais importantes, num mundo que se quer mais sustentável) passando pelas comunicações (basta recordar as fibras ópticas que unem os continentes nessa rede gigantesca que é a Internet, para não falar já dos sistemas de comunicação por satélite, que incluem o GPS). E as artes, sejam estas literárias, visuais, dramatúrgicas ou cinematográficas, servem-se da luz e celebram.na, seja esta fenómeno físico seja como metáfora que significa esclarecimento e progresso.

O Dia Internacional da Luz ocorre no dia 16 de Maio pois foi nesse dia, no ano de 1960, que o físico americano Theodore Maiman acendeu, nos laboratórios da Hughes Aircraft Company em Malibu, Califórnia, pela primeira vez uma luz laser visível. Laser é um acrónimo para “light amplification by stimulated emission of radiation”. Já antes existia o maser (neologismo feito da mesma maneira como “microwaves” em vez de “luz”), feito a partir de microondas no pós-guerra, mas Maiman foi pioneiro a fazer brilhar um cristal de rubi através de emissão estimulada. A ideia era antiga, pois tinha vindo da mente de Einstein no início do século XX.

Quando o laser surgiu no laboratório dizia-se que era uma invenção á procura de uma aplicação, isto é, não se sabia bem para o que é que servia. Não encontro uma só aplicação, mas várias, como mostra o seu uso, ubíquo hoje em dia, desde as impressoras a laser até às caixas registadoras dos supermercados, passando pela leitura de CD e DVD. Vários tinham sido os trabalhos até à proeza de Maiman (alguns deles valendo o Nobel, Maiman não o ganhou) e muitos mais haveriam de se suceder depois. O laser, para além das suas aplicações na vida prática, possibilitou nova ciência.

Curiosamente, o dia 16 de Maio foi desde há poucos anos, em Portugal, designado pela Assembleia da República como Dia do Cientista, por nesse dia ter nascido o físico José Mariano Gago que foi o primeiro ministro da Ciência e Tecnologia e o grande responsável pelo extraordinário desenvolvimento da Ciência nos últimos 20 anos em Portugal. Gago, se fosse vivo, teria feito 70 anos no passado dia 16 de maio. Várias pessoas e entidades, incluindo o Presidente da República que o homenageou postumamente com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago de Espada, uma condecoração que foi recebida pela mãe do homenageado. A coincidência é curiosa, porque assim em Portugal se celebra no mesmo dia a luz e o cientista, evocando a memória de um cientista que foi, metaforicamente, uma grande fonte de luz na vida nacional.

O Dia Internacional da Luz teve o seu ponto alto em Paris, na sede da UNESCO, com um programa em que a ciência se uniu à arte, não dispensando o concurso da política. Portugal esteve presente através do Comissário Nacional do Ano Internacional da Luz, o autor destas linhas, e Pedro Pombo, director da Fábrica Ciência Viva, especialista em holografia e o grande responsável pelo extenso programa português em 2015 à volta da luz.  Mas estes não foram os  únicos portugueses.

O programa contou com uma apresentação multimédia sobre a luz, intitulada “Breve história da luz” decerto em homenagem a Stephen Hawking, por parte do artista de luz Nuno Maya, nascido em 1978 em Lisboa, Prémio revelação em 2006 do BES e Fundação de Serralves, que está associado à empresa “O Cubo” em Sintra  que tem organizado por todo o país e no mundo feéricos espectáculos multimédia de som e luz, designadamente aproveitando as paredes de monumentos nacionais, alguns deles listados no rol do Património Mundial da UNESCO.

Um exemplo foi o espectáculo que proporcionaram a dezenas de milhares de pessoas no Pátio das escolas da Universidade de Coimbra no Ano Internacional da Luz. Mas OCubo fez também já exibições em Eidhoven, em Helsínquia, em Praga e em Melbourne. Proximamente tem programado até ao dia 30 de Juho, á noite, um espectáculo imersivo de luz nas ruínas do Convento do Carmo em Lisboa (“Lisbon under Stars”), realizado numa parceria institucional com a Associação dos Arqueólogos Portugueses, o Museu Arqueológico do Carmo e a Guarda Nacional Republicana.

Em Paris, no grande auditório da UNESCO, impressionaram os delegados de dezenas de países do mundo com uma interpretação artística da história da decifração dos mistérios da luz, uma história antiga mas que prossegue nos tempos de hoje. O seu “show” acabou por ser repetido, no final da sessão comemorativa do Ano Internacional da luz, engrandecido com a voz da soprano britânica de origem cipriota Katerina Mina, que cantou canções de Linda Lamon alusivas à luz.  Em Paris, “cidade luz”, houve luz no passado dia 16 de maio. É também em paris que desde há poucos meses está funcionar na Rue de Saint Maur, perto da Gare de Leste, uma novo espaço público, intitulado “L’Atelier de Lumière”, onde o espectador se sente dentro de pinturas dos austríacos  Klimt  e de Hundertwasser, projectadas nas paredes, no tecto e no chão. Um espectáculo que não deve ser perdido por quem vai a Paris.

O PAPEL DO PAPEL: PASSADO E FUTURO DAS BIBLIOTECAS


Resumo da minha intervenção no TEDx de Aveiro hoje:

Os livros são feitos de papel e o papel vem das árvores. Foram os chineses os inventores do papel no séc. II a.C.: as primeiras impressões foram feitas na China, no séc. III. O papel chegou à Europa através dos árabes só no século XI, mas a imprensa não chegou. Teve de ser reinventada no séc. XV na Alemanha, por Gutenberg, que causou o que podemos chamar as “segundas impressões.” Foi uma verdadeira revolução no Ocidente. Carl Sagan escreve, em “Cosmos”, que a “escrita foi a maior das invenções humanas, ligando as pessoas, cidadãos de épocas distantes que nunca se chegaram a conhecer. Os livros quebram as cadeias do tempo, provam que os seres humanos são capazes de exercer a magia”.

O livro é, de facto, um instrumento mágico – permite-nos ouvir directamente alguém do passado - e com Gutenberg a magia passou a estar por todo o lado. A Revolução Científica nos sécs. XVI-XVII que significou o início da ciência moderna não teria sido possível sem a Revolução de Gutenberg: Nicolau Copérnico, André Vesálio, Galileu Galilei e os portugueses Garcia da Orta e Pedro Nunes escreveram livros que hoje se conservam em bibliotecas históricas, autênticas cápsulas do tempo, como a Biblioteca Joanina de Coimbra, não só uma das mais belas do mundo mas também uma das mais preciosas por guardar esses e outros livros como uma das Bíblias mais raras da época de Gutenberg e o exemplar único de um dos “Roteiros da Índia” de D. João de Castro, que ilustra a ponte que os Portugueses estabeleceram no séc. XVI entre Ocidente e Oriente. As bibliotecas foram desde sempre repositórios de cultura, sendo a ciência uma parte essencial da cultura.

Na segunda metade do século XX, irrompeu outra revolução que mudou o livro e as bibliotecas: a revolução electrónica. Os computadores, conectados pela World Wide Web, proliferaram pelo planeta. As bibliotecas, que continuaram obviamente a ter livros em papel, passaram a ser, para além de repositórios de papel, repositórios digitais, quer de livros em papel digitalizados, quer de livros e publicações eletrónicas. Uns e outros passaram a estar acessíveis urbi et orbi,  permitindo o acesso aberto ao conhecimento. Hoje as bibliotecas estão por todo o lado, mesmo no nosso bolso através dos telemóveis. Hoje podemos falar de bibliotecas sem paredes. Elas são uma extensão da nossa memória.

O papel e o digital não são inimigos, antes se complementam. Digitalizam-se as impressões de papel e até se podem colocar conteúdos digitais em memórias electrónicas de papel. Estou em crer que os livros em papel vão continuar tal como as bibliotecas que os albergam, ao mesmo tempo que os conteúdos digitais vão continuar a multiplicar-se: Já há, de facto, bibliotecas que não têm um único livro em papel, como a Biblioteca da Universidade Politécnica da Florida, que é apenas um belo sítio com wifi. Significará isso que à vista o fim do papel, do livro e das bibliotecas? As notícias da morte do papel são um bocadinho exageradas. Na nossa sociedade  cada vez se produz mais papel e cada vez se consome mais papel. Desenvolvimento é sinónimo de papel: os países com mais papel-moeda são também aqueles com mais papel em geral, com mais livros e mais bibliotecas… Um dos sinais de desenvolvimento é, de resto, a construção de novas bibliotecas contendo livros em papel, como a espectacular e muito recente Biblioteca de Tianjin, na China.

Conforme diz Carl Sagan: “Os livros permitem-nos viajar no tempo, beber na própria fonte a o saber dos nossos antepassados. A biblioteca põe-nos em contacto com as concepções e o saber, a custo extraídos da Natureza, das maiores mentes até agora existentes, com os melhores professores, provindos de todo o planeta e de toda a nossa história para menos inspirarem e dar a nossa contribuição ao saber colectivo da espécie humana. (…) A saúde da nossa civilização… pode ser medida pelo apoio que damos às nossas bibliotecas.”

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Resposta ao comentário anónimo ao post: "A ADSE criticada pela Associação 30 de Julho"


Quem dá e tira ao inferno vai parar” (provérbio).

E porque “em todas as lágrimas há uma esperança” (Simone Beauvoir), começo por transcrever, na íntegra, o comentário anónimo que foi feito nesse mesmo dia  ao meu post aqui publicado, intitulado “A ADSE criticada pela Associação de 30 de Julho” (23/05/18): "Que os cidadãos com responsabilidades na direcção da "res publica" sintam um dia a ardência de um azorrague com tantas cordas quantos os males que, conscientemente, infligiram”.
Reporta-se este comentário à reprovação, por parte do seu autor, ao tratamento dado pela ADSE a anteriores cônjuges de seus beneficiários, como se fossem gafos, expulsos da “polis”, segundo Aristóteles, comunidade ordenada tendo em vista o bem viver dos cidadãos, ou seja a sua felicidade, através de uma visão ética da política, ao inverso de determinados políticos portugueses ambiciosos para quem os fins justificam os meios mesmo que seja discutível a sua legitimidade. Colho mero exemplo, no Decreto-Lei 118/83, Secção III, pondo 2, que passo a transcrever: “A inscrição na ADSE destes familiares só será viável desde que provem não beneficiar de qualquer outro regime de protecção social e enquanto se mantiver esta situação”.
Desta forma, retorcida de encarar os antigos familiares em piruetas de retroactividade das leis mandando para o cesto de papéis, o que estava em uso, de há dezenas de anos para cá, ademais numa altura em que se “discute a morte assistida”, assiste-se a uma espécie de “morte desassistida” de idosos lançados, de uma hora para a outra, para um Serviço Nacional de Saúde já a rebentar pelas costuras, pese embora o brio profissional de médicos e enfermeiros ao seu serviço em contantes manifestações de descontentamento.
Este Decreto-Lei foi partejado durante o VIII Governo Constitucional, tutelado pelo PSD e reanimado em cuidados intensivos que remontam de 83 aos nossos dias, em incubadora do Partido Socialista. Sem discutir a intenção social(ista), em procura de votos favoráveis a futuras eleições que se avizinham, pelo alargamento de beneficiário de titulares de  uniões de facto, dando a uns para tirar a outros casados pelo civil, expulsos do seu seio, discuto apenas a orientação dada a esta medida feita por parte de merceeiros de bairro  entusiasmados com aquilo que consideram uma espécie de “milagre das rosas”. 

Ou seja, dinheiro obtido alegremente com essas novas inscrições sem tomar em linha de conta o défice de uma ADSE com o aumento de despesas maiores em cuidados de saúde não orçamentados e previstos devidamente, conduzindo, a breve prazo, à respectiva falência. Como nos ensina a vox populi, é preferível prever a prevenir.
Julgo haver toda a conveniência em ser conhecido publicamente o que pensam desta situação o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista e os Verdes (já por mim chamados à colação anteriormente), e no espectro político oposto, o CDS, com exclusão, evidentemente, do PSD e PS responsáveis pela paternidade conjunta deste aborto legislativo. A própria opinião pública mantém um ruído ensurdecedor, como sói dizer-se, sobre este assunto de elevado interesse social e humanitário, com a honrosa ressalva de uma recente “Petição Pública” que não encontrou eco para ser discutida numa Assembleia da República, ainda que com o perigoso respaldado de votos maioritários da apelidada (com ironia cáustica de Vasco Pulido Valente) de “Geringonça”.
Em ultima ratio, faço votos para que o novo presidente da ADSE, que aguarda nomeação, não siga as pisadas de Carlos Liberato Baptista, presidente demissionário, porque “tudo o que sucede, sucede por alguma razão” (Gabriel Garcia Marquez). Atrevo-me a pensar que o que fez foi por não ter capacidade para fazer melhor ou por se ter deixado encadear pelo poder do cargo desempenhado qual borboleta atraída por uma lâmpada eléctrica sendo [i]por ela queimada. Isto na melhor e mais benevolente acepção crítica!

"As Virtudes do fracasso", um livro sobre a superação dos erros

Feira do LIvro de Matemática

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O NEORREALISMO DE JÚLIO POMAR (1926-2018)


É percorrer o Facebook ver a quantidade de evocações do Cidadão que ontem nos deixou e tomar consciência do seu admirável legado. Considerado o mais destacado dos cultores do neorrealismo nacional, foi autor de uma vasta e diversificada obra, em termos de estilos ou correntes (expressionismo abstrato, surrealismo e outros), revelou-se na pintura, no desenho, na cerâmica na gravura e na escrita.

Na modesta homenagem que é meu impulso prestar-lhe, limito-me a lembrar algo de muito breve e simples sobre a sua fase dita neorrelista.

Nesta fase, a primeira de muitas outras que explorou no decurso da sua longa vida, Júlio Pomar, referenciado na história como pintor pós-modernista, retomou a atitude, a um tempo, estética e social do Realismo, o movimento artístico iniciado em França, a meados do século XIX, visando, sobretudo, os problemas das classes média e baixa. Diga-se que este movimento, rapidamente alastrado ao campo da literatura (Eça de Queirós. Honoré de Balzac, Charles Dickens, entre outros), surgiu em plena Revolução Industrial, aquando das primeiras lutas sociais contra o capitalismo, então em franco desenvolvimento.

Impulsionado pela militância de contestação política ao regime do Estado Novo, o jovem Pomar procurou, nas décadas de 1940 e 1950, denunciar a realidade social e política que então se vivia em Portugal. E fê-lo em parte da obra que nos deixou.

Recordo que, em 1946, tinha eu 15 anos, Júlio Pomar iniciou um grande mural no Cine-Teatro Batalha, no Porto, mural que foi estupidamente destruído, no ano seguinte, por imposição de Salazar. Uma das suas pinturas, exibida em 1947, numa das Exposições Gerais de Artes Plásticas, realizadas na Sociedade Nacional de Belas Artes, foi apreendida pela polícia política. Por essa altura foi preso pela PIDE e, em 1949, foi destituído do lugar de professor de desenho, no ensino técnico, na sequência da sua participação na candidatura Norton de Matos à Presidência da República.

Foi esta realidade que a minha geração sentiu na pele e que os jovens, os homens e as mulheres hoje na casa dos 50 anos, felizmente, desconhecem.

A. Galopim de Carvalho

Minha entrevista no n.º 2 da revista "Sou cientista" (que sai com um kit da Science4you)


1- Quando era criança já tinha interesse pela área da Ciência? E a Física, como entrou na sua vida?

Comecei a ler cedo e devorava tudo quanto lia. Um dos meus primeiros livros, lá pelos dez anos, foi "O Clube do Espaço" da Biblioteca dos rapazes. A Física surgiu mais tarde a partir de livros de divulgação científica: os livros "Ciência para gente nova", alguns dos quais de Rómulo de Carvalho, os livros da colecção "Saber", Enfim, queria saber. Ciência é isso mesmo, ter curiosidade.

 2- Em que consiste o trabalho de um físico?

Um físico estuda o mundo em geral: o movimento, para o que interessa saber o que é o espaço e o tempo, a matéria e a energia, a constituição das coisas, para o que interessa saber o que são partículas e interacções. Combinando tudo isto, os físicos querem saber como é, de onde veio e para onde vai, o Universo ao qual pertencemos. Nós somos parte do Universo ou Cosmos, mas somos, tanto quanto sabemos, a única parte dele que o tenta compreender.

3- Como podemos tornar a Física divertida? A Física desafia a nossa imaginação, tem desafiado a imaginação de muitas pessoas. É divertido decifrar os mistérios que o Universo nos oferece. Há muitas histórias divertidas de descoberta...

4 - É responsável pela instalação do computador mais potente que existe em Portugal (o Milipeia). Com que objetivo foi criado?

Bem, hoje já há computadores mais potentes, porque os computadores estão em grande evolução. Mas há décadas atrás fizemos em Coimbra um supercomputador barato juntando cerca de cem computadores pessoais, pelo que chamámos centopeia. Depois adquirimos um supercomputador, mais de dez vezes mais rápido, ao qual chamámos "Milipeia". Inventar estes nomes foi divertido.

5- Como refere no seu livro “Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa Ciência”, nos meios de comunicação existe muita informação dita “científica”, mas que afinal não é verdadeira. No que devemos acreditar?

 De facto, nos média, em particular na Internet, existem muitas tretas. Devemos duvidar de muita coisa que lá está, procurando confirmar. Um bom método consiste em verificar quem fez a afirmação. Será alguém que estudou e sabe mesmo do assunto? E há outras pessoas sabedoras que dizem o mesmo?

6 - A Física também estuda o Universo. Aprende-se na escola que tudo começou com um Big Bang. E antes disso, o que é que existia?

Não sabemos. De facto, a pergunta pode mesmo não ter qualquer resposta, por não existir o "antes" do Big Bang. Com o Universo nasceram também o espaço e o tempo e, por isso, pode não haver um tempo antes do nosso tempo. mas também pode haver um outro tempo. Repito: não sabemos, talvez nunca venhamos a saber.

7- Pelo que sabemos, está previsto levar seres humanos a Marte em 2030. Para que serve esta missão?

Não sei se será em 2030, mas mais cedo ou mais tarde vai acontecer. tecnicamente é possível ir a Marte, é uma questão de dinheiro e de vontade política. Uma missão como essa servirá para conhecer melhor Marte e também para conhecer melhor o ser humano, uma vez que as condições de vida em Marte e na viagem até lá são muito diferentes das da Terra. mas, acima de tudo, iremos a Marte pela aventura, tal como se foi á Lua ou como, na Terra, se escalaram os maiores picos e se desceu ao fundo do mar. O homem sempre quis ir mais além.

8- Na sua opinião, existe vida noutros planetas? Como se faz essa pesquisa?

Não sabemos, mas provavelmente existe. Tentamos procurar vida de várias maneiras: uma consiste em encontrar planetas extrasolares, em particular aqueles com condições semelhantes às da Terra. Outro ainda é verificar em meteoritos que caem na Terra ou em directamente em outros astros do sistema solar se há algum vestígio de matéria orgânica. Outra ainda é, com radiotelescópios, tentar ver se chegam sinais de rádio emitidos por eventuais civilizações extraterrestres. Uma questão interessante é saber se a vida fora da Terra tem a mesma forma, por ser baseada no ADN, da vida na Terra.

9 - O descolar de um foguetão acontece devido às leis da física. Como é que tantas toneladas conseguem chegar até ao Espaço?

É o princípio da acção-reacção da física: os gases do foguetão saem para baixo em grande quantidade e em grande velocidade e o foguetão tem de subir no espaço. Tal como um vulgar foguete de cana, mas maior. Podemos experimental em casa com um balão que se enche e depois se abre o gargalo: o balão move-se como um foguetão ou um foguete.

10 - Que conselhos pode dar aos jovens que queiram ser cientistas?

Sejam curiosos, leiam para satisfazer a vossa curiosidade. E, sobretudo, façam experiências para responder a perguntas sobre o mundo. A ciência está baseada na experimentação.

O LIMBO EMPÁTICO

 “O Limbo Empático” é a nova produção teatral que a marionet apresenta nos dias 29 e 30 de maio, pelas 21H30, no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) em Coimbra. Com texto e encenação de Mário Montenegro, o espetáculo, sobre sistemas,  conta com a interpretação de Carolina Santos, Filipe Eusébio e Sílvia Santos. Esta coprodução da marionet com o TAGV coimbra destina-se a um público a partir dos 12 anos.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Farto de dietas? Então vamos falar de dietas | João Júlio Cerqueira no TEDxPorto


Carlos Fiolhais e David Marçal na Feira do Livro - domingo 27 de Maio às 18h


FEIRA DO LIVRO EM TODO O MUNDO


O natural não é necessariamente bom | David Marçal no TEDxPorto

A minha participação do TEDxPorto, no palco da Casa da Música. Os meus parabéns a toda a organização pelo excelente evento e o meu agradecimento pelo convite.

APELO ÀS EMISSORAS TELEVISIVAS

Apelo que subscrevi: 

Nos últimos anos temos assistido a um desvirtuar total do desporto enquanto actividade de valores, de humanismo. A luta de palavras invadiu a normalidade dos noticiários e as agressões verbais tornaram-se a norma num ecossistema que parece alimentar-se dessa mesma violência.

Abarcando cada vez mais espaço nas mentalidades, os programas de comentário desportivo levam, muitas vezes, ao limite do inimaginável o prazer do azedume, da acusação, da maledicência. É a prática constante de uma violência verbal que alimenta essa voragem em que cada vez mais cidadãos se encontram, fechados nesse clima de intriga, ruminando um ódio que pode eclodir a qualquer momento.

Com uma grelha televisiva centrada nestes debates, muitos jovens não resistem à tentação dessa presença contínua nas televisões, sorvendo uma cultura que gera o ódio, que incita à violência e que desagrega a sociedade como um espaço de fraternidade e de paz.

Pelas consequências vistas nos últimos anos; Pelas consequências vistas nos últimos dias; Porque é preciso restituir dignidade aos telespectadores, lançamos um APELO aos canais televisivos para que criem mecanismos de regulação ética que enquadrem estes debates, e para que reduzam o tempo de exposição das dimensões colaterais ao futebol, fomentando uma cultura de respeito e de tolerância, sendo esses programas instrumentos de diálogo e de compreensão através do debate livre, e não ferramentas de disseminação do ódio em que parte do país se acha mergulhado, moldando mentalidades.

 21 de Maio de 2018.

Promotores:

Paulo Mendes Pinto, Prof. Universitário
António Serzedelo, Activista cívico
Catarina Marcelino, Deputada
José Eduardo Franco, Prof. Universitário
Patrícia Reis, Jornalista e escritora
Pedro Abrunhosa, Músico

Assinam:
Alexandre Castro Caldas, Médico
Alexandre Honrado, Escritor
Anabela Freitas, Presidente da C.M. de Tomar
Anabela Mota Ribeiro, jornalista 
Annabela Rita, Profª. Universitária, Directora da Associação Portuguesa de Escritores
Ana Umbelino, Vereadora da C. M. de Torres Vedras
António Araújo, Prof. Universitário
António Avelãs, Prof. Universitário
António Borges Coelho, Prof. Universitário
António Pinto Pereira, Advogado
Berta Nunes, Presidente da Câmara Municipal de Alfândega-da-Fé
Carlos Bernardes, Presidente da C. M. de Torres Vedras
Carlos Fiolhais, Prof. Universitário
Carlos Moreira Azevedo, Bispo
Carlos Vargas, Gestor Cultural
Cipriano Justo, Médico
Cláudia Horta Ferreira, Vereadora da C. M. de Torres Vedras
Elísio Summavielle, Gestor Cultural
Eugénio Fonseca, Presidente da Cáritas Portuguesa
Fernanda Câncio, Jornalista
Fernando Pereira, Cantor
Fernando Ventura, Frade Franciscano Capuchinho
Francisco Sarsfield Cabral, Jornalista
Graça Morais, Pintora
Henrique Pinto, Fundador-Presidente da Impossible – Passionate Happenings
Jaime Ramos, Médico, Fundador da ADFP
João de Almeida Santos, Prof. Universitário
João Couvaneiro, Vice-Presidente da C. M. de Almada
João Paulo Leonardo, Director do Agrupamento de Escolas Baixa-Chiado
Joaquim Franco, Jornalista
Joaquim Moreira, Quórum dos Setenta da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias
Joaquim Pintassilgo, Prof. Universitário
Jorge Proença, Director da Fac. de Ed. Física e Desporto da Un. Lusófona
José Maria Brito, Pe. Jesuíta
José Vera Jardim, Jurista
Mafalda Anjos, Jornalista
Mário Beja Santos, Escritor
Manuel Sérgio, Provedor de Ética no Desporto
Manuel Vilas Boas, Jornalista
Mendo Castro Henriques, Prof. Universitário
Miguel Real, Escritor
Nidia Zózimo, Médica
Nuno Camarneiro, Escritor
Nuno Júdice, Poeta
Patrícia Fonseca, Jornalista
Paulo Borges, Prof. Universitário e Presidente do Círculo do Entre-Ser
Paulo Fidalgo, Médico
Rachid Ismael, Director do Colégio Islâmico de Palmela
Raul Castro, Presidente da C. M. de Leiria
Richard Zimler, Escritor
Rui Martins, Vereador Suplente na C. M. de Lisboa
Sofia Lorena, Jornalista
Tânia Gaspar, Dirigente Associativa
Zara Pereira, Presidente da Associação Humano


par, Dirigente Associativa Zara Pereira, Presidente da Associação Humano

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Parecer da Sociedade Portuguesa de Matemática relativo ao projecto de decreto‐lei que estabelece o currículo do ensino básico e secundário

Também a Sociedade Portuguesa de Matemática elaborou um parecer relativo ao projecto de decreto‐lei que “estabelece o currículo do ensino básico e secundário, os princípios orientadores da sua conceção, operacionalização e avaliação das aprendizagens". Transcrevo o essencial:
1. O projecto de decreto-lei que pretende estabelecer o Currículo dos Ensinos Básico e Secundário apresenta-se como sendo a conjugação de outros documentos cuja análise é indispensável a uma participação responsável na presente consulta. Entre aqueles, remete de forma fundamental para o documento Aprendizagens Essenciais de Matemática para o Ensino Básico e Secundário, tornado público pelo Ministério da Educação em agosto de 2017. 
2. Contudo, as Aprendizagens Essenciais de Matemática para o Ensino Básico e Secundário, apesar de se passarem a constituír como referência no ensino, encontram-se de há um ano para cá num estado de rascunho, nunca tendo sido submetidos a consulta pública ou a escrutínio por especialistas. Nas palavras do próprio Ministério da Educação, trata-se de um documento de trabalho inacabado (unicamente 4 dos 12 anos de escolaridade estão contemplados) a terminar durante o ano letivo 2017-18 (apesar de já ter sido aplicado no terreno num grande número de escolas do país).  
3. Do que já se conhece do mesmo alertou a SPM em Agosto de 2017 para o facto de este constituir um documento excessivamente vago e ineficaz como orientador do ensino, em particular por permitir interpretações que desvirtuam gravemente o Programa em vigor. Alertámos também para o perigo de as Aprendizagens Essenciais virem a comprometer seriamente o percurso escolar dos alunos envolvidos, provavelmente de forma irreversível, já que foram aplicados a alunos em início de ciclo (1º, 5º, 7º e 10º anos de escolaridade).  
4. Passados oito meses sobre a publicação das Aprendizagens Essenciais, o documento não sofreu qualquer alteração. Mantém-se assim em estado de rascunho, bem visível na forma apressada e descuidada como se encontra redigido, e na forma aparentemente aleatória com que apresenta os conteúdos matemáticos a tratar. As deficiências do documento vão desde afirmações excêntricas, como a preconização da utilização das noções de mínimo múltiplo comum e máximo divisor comum em “contextos matemáticos e não matemáticos”, a falhas graves, como o desaparecimento da multiplicação e divisão de números racionais ou a aparente antecipação de conteúdos complexos do 9.º ano (funções de proporcionalidade inversa) para o 7.º ano, nível em que os alunos não têm o conhecimento de conceitos e procedimentos base, nem tão pouco a respetiva consolidação, imprescindível ao entendimento de etapas sequentes. É também de assinalar uma desarticulação geral da Geometria, tema em que desaparece quase por completo a prática do raciocínio dedutivo. Na verdade, o documento sobrevaloriza objetivos relacionados com o desenvolvimento de capacidades na ausência de conteúdos que os suportem. Em relação às “aprendizagens” propriamente ditas, o documento é omisso e vazio de conhecimentos matemáticos efetivos, o que levará certamente a uma generalizada desorientação ao colocá-lo em prática. 
5. Assinala-se, também, que hoje o sistema educativo assenta em programas e metas concebidas em total alinhamento com as recomendações internacionais mais avançadas e também com programas de estudos internacionais tal como o TIMSS. É, pois, inconcebível que depois de Portugal ter realizado progressos significativos, comprovados pelos notáveis resultados alcançados no estudo TIMSS 2015, se substituam documentos curriculares com essas características por outros que não as cumprem. A SPM considera inaceitável que se pretenda que um conjunto de meia-dúzia de páginas, em grande parte desarticuladas e desconexas, se venha a sobrepor, já no próximo ano letivo e para todos os alunos do país, aos actuais Programa e Metas Curriculares de Matemática (e às centenas de páginas repletas de exemplos, explicações e considerações que os acompanham). Trocar a clareza e o rigor pelo vago e desarticulado constitui um claro sinal da desvalorização que este ME está a imprimir à transmissão articulada e estruturada do conhecimento.  
6. O projecto de decreto-lei visado nesta consulta pública, no seu todo, acentua essa desvalorização, 
a) ao modificar o currículo em vigor por outro em que se desinveste no conhecimento, reduzindo-o a um mínimo insuficiente para levar os alunos a patamares de autonomia na ação e no desenvolvimento do raciocínio; e ao colocar continuamente a tónica na prática, no aplicável e no concreto, limitando e comprometendo a aprendizagem de disciplinas como a matemática em que uma aquisição estruturada e sequencial permite agregar a realidade e a abstração matemática. 
b) ao secundarizar os conteúdos em prol dos processos que insistentemente estabelece como prioritários – abordagens multidisciplinares, aprendizagem por projetos –, assim como ao impor a ideia errada de que toda a aprendizagem deve necessariamente ser feita em contexto, limitando a autonomia e flexibilidade pedagógica dos professores na conveniente escolha da ação que melhor se adapta às especificidades que os alunos apresentam. 
c) ao obrigar as escolas a optarem por decisões em que se admita que se possa reduzir drasticamente a carga horária a Matemática. De facto é bem patente nas matrizes curriculares base do projeto que essa redução poderá atingir 20% dos tempos horários hoje balizados para a disciplina de Matemática. Este corte na carga lectiva sinaliza de forma factual o desinvestimento, por parte deste Ministério da Educação, na Matemática e da sua desvalorização da transmissão do conhecimento. 
7. Por todas estas razões, é para a SPM incompreensível que 
a) tenha sido aprovado em Conselho de Ministros e colocado à consulta pública um documento que pretende substituir uma estrutura legislativa articulada, que produziu resultados evidenciados pela comunidade nacional e internacional, por outra desarticulada que remete para documentos oficialmente inexistentes, com contornos que indiciam um claro retrocesso e desinvestimento no conhecimento e no ensino, e compromete uma avaliação robusta do sistema sobre o desempenho dos alunos. 
b) o Ministério da Educação tenha a pretensão que este se possa sobrepor, no próximo ano letivo e à escala nacional, aos Programas oficiais em vigor.  
8. Em suma, a SPM não pode deixar de lamentar veementemente e de forma pública este intempestivo e progressivo desmantelamento dos pilares em que se apoia a Escola portuguesa e dos progressos tão duramente conquistados pelos nossos alunos e respetivas famílias e escolas – num processo que, se não cessar com brevidade, trará consequências que levarão décadas a corrigir.

Parecer do Conselho de Escolas relativo ao projecto de decreto‐lei que estabelece o currículo do ensino básico e secundário

Por solicitação do Ministro da Educação, o Conselho das Escolas elaborou um parecer relativo ao projecto de decreto‐lei que “estabelece o currículo do ensino básico e secundário, os princípios orientadores da sua conceção, operacionalização e avaliação das aprendizagens". Tal normativo substituirá o Decreto‐Lei n.º 139/2012, de 5 de Julho, que vai fazer quatro anos de vigência.

Nesse parecer, aprovado em 10 de Maio, e em síntese, o Conselho das Escolas esclarece a sua posição em oito pontos:
1. O novo modelo de organização e gestão curricular não assegura às Escolas a autonomia e as possibilidades de flexibilidade do currículo que se anunciam. Tal como tem acontecido nas últimas décadas, as iniciativas de flexibilidade e autonomia das Escolas continuarão a  depender, em muito, dos recursos disponíveis e das normas que  regulam a sua gestão. As Escolas continuarão manietadas e dependentes dos meios que outros, momento a momento, decidirem conceder‐lhes.  
2. Para as Escolas ganharem a autonomia e a flexibilidade curricular, referidas ao longo de todo o projeto em apreciação, não seria necessário proceder a uma revisão curricular, nem sequer a uma  alteração legislativa, bastaria um ato administrativo que permitisse às  Escolas criarem os “domínios de autonomia curricular” e gerirem 25% do currículo, como aliás aconteceu com a publicação do Despacho n.º 5908/2017, de 5 de julho (PAFC). 
3. Na verdade, o atual quadro legislativo (Decreto‐Lei n.º 139/2012), as suas disposições de organização e gestão curricular e as matrizes  curriculares em vigor não impedem que as Escolas possam gerir o currículo com a flexibilidade  que agora se preconiza, tal como não impediram que, em 2017/2018, mais de duzentas Escolas o pudessem fazer. 
4. As Escolas nunca poderão almejar a qualquer reforço da respetiva autonomia curricular sem o concomitante reforço de autonomia administrativa e de gestão de recursos humanos, materiais e financeiros. 
5. As matrizes curriculares do ensino básico prescrevem um acréscimo de novas componentes/disciplinas, de que resultará uma maior e  desnecessária fragmentação do currículo. Desnecessária, note‐se, porque as aprendizagens a realizar nestas novas disciplinas poderiam  concretizar‐se nas que existem atualmente, nomeadamente no Apoio  ao Estudo, na Oferta de Escola e na Oferta Complementar, sem necessidade de introduzir tal segmentação. 
6. A redução da burocracia, a necessária clareza conceptual das  normas de organização curricular, o respeito pelas Escolas e a defesa  da sua autonomia  aconselham a supressão do articulado da Secção II (art.º 18.º a 22.º). 
7. Este projeto de revisão curricular decalca as matrizes, muitas das normas e dos mecanismos previstos no Despacho n.º 5908/2017, de 5 de julho (PAFC), que está a ser aplicado num significativo número  de Escolas do país. O Conselho das Escolas entende que a eventual generalização de uma revisão curricular que tem como base o PAFC, nunca deverá ocorrer sem que o regime experimental deste projeto esteja devidamente concluído e, consequentemente, tenha sido  avaliado o seu impacto.  
8. Contrariamente ao PAFC ‐ cujo valor enquanto mecanismo de  reforço da flexibilidade e da autonomia curricular, reside, precisamente, no facto de ser um projeto de adesão voluntária e, em alguns casos, entusiasta de muitas Escolas ‐ o projeto curricular em  apreciação será, ab initio, a expressão contrária do que se advoga, uma vez que interfere em muitas áreas e decisões tomadas no âmbito da autonomia e dos Projetos Educativos em curso, sem que se vislumbre qualquer necessidade ou benefício para o sistema educativo.

A ADSE CRITICADA PELA ASSOCIAÇÃO 30 DE JULHO


Meu artigo de opinião publicado hoje no "Diário as Beiras":
“Morre o bicho, acaba-se a peçonha” (provérbio popular).

Li no “Público” (12/05/2018), em chamada de 1.ª página, que o “Ex-presidente fez nomeações depois de sair da ADSE”.
Na respectiva página 23, está impresso: “O conselho directivo da ADSE, cujo presidente Carlos Liberato Baptista está demissionário, aprovou na quinta-feira a nomeação de 16 dirigentes dos novos departamentos e divisões do instituto que gere o sistema de assistência na doença da doença da função pública”.
Felizmente, porque ainda há gente neste Portugal, como diria Camilo, sem curvar a cerviz a vizires, não cedendo a artifícios legais, quais piruetas que tentam justificar o injustificável, transcrevo dessa mesma notícia: “A chamada de atenção para as nomeações de dirigentes intermédios por parte do presidente demissionário partiu da Associação 30 de Julho (criada por um grupo de benificiários da ADSE), considerando que elas ‘visam condicionar’ a acção do futuro presidente”. Isto é, em contradita com o provérbio popular, em epígrafe, porque nem sempre que um dirigente se demite acaba a sua peçonha.
Acresce o facto do presidente demissionário da ADSE não pode ser tido como simples menino de coro por uma auditoria do Tribunal de Contas ter noticiado  que o Governo está a financiar o Orçamento de Estado à custa da ADSE por os funcionários públicos estarem a pagar mais  228 milhões  do que seria necessário (“Expresso”, 17/07/2015), contrastando esta  situação com a notícia publicada, três anos passados: “ADSE gastou mais 40 euros por beneficiário em 2017. Despesa com cuidados de saúde disparam e ameaçam  contas do sistema” (“Público”, 10/05/2018). Será que a culpa dos responsáveis por este “statu quo” morre solteira?
Entretanto, não posso deixar de estranhar o silêncio do Bloco de Esquerda, do Partido Comunista e dos Verdes (penitencio-me se me demonstrarem que estou a ser injusto!)  por uma medida do Partido Socialista de desprezo pela velhice que mereceu de Arnaldo Gama o queixume: “ Para isto é que eu vivi! Malditos anos! Maldita velhice!” Essa medida, enviou  familiares de beneficiários da ADSE para uma espécie de antecâmara da morte: um Serviço Nacional de Saúde, a rebentar pelas costuras, que não podia, e muito menos devia, ser sobrecarregado com a chegada de novos “clientes”, até recentemente, beneficiando dos serviços da ADSE. 
Muitos deles, no ocaso da vida, padecendo de doenças  inerentes à sua idade que os obriga a ficarem para sempre amarrados a uma cadeira de rodas, sem ‘lobbies’ ou escritórios de advogados que os represente (Bagão Félix)  e, essencialmente, sem o traquejo de doentes que têm sido assistidos a vida toda   pelo  Serviço Nacional de Saúde, “et pour cause”, com o hábito enraizado de se desenrascarem (passe o plebeísmo de caserna!).
Doentes, chutados de supetão da ADSE, normalmente, sem terem familiares que os possam acompanhar às consultas hospitalares, por se encontrarem em horas de  serviço, são coagidos a aceitarem o facto de serem  tidos como trapos velhos de que umas tantas crianças de antigamente faziam bolas de futebol de rua por as magras bolsas de seus pais não lhes permitirem a compra de bolas de couro.
Séculos atrás, interrogava Eça: “Pode exigir-se que haja um Dante em cada paróquia e exigir que os Voltaires nasçam com a profusão dos tortulhos?” Claro que não! Mas deve-se exigir, isso sim!, que os cidadãos, com responsabilidades na direcção da “res publica”, não tenham falta de competência que deslustre e, muito menos, ausência de ética que desonre!

"RECORDANDO RICHARD FEYNMAN EM PORTUGAL" COM MÁRIO PINHEIRO (IST)

O VOCABULÁRIO PARA A EDUCAÇÃO ESCOLAR PROPOSTO PELA OCDE

Em continuação de texto publicado aqui.


Na página 7 do documento da OCDE intitulado The future of education and skills. Education 2030 - afinal, o guia para a educação formal a um nível global - explica-se que a estruturação da nova aprendizagem, que se pretende obter num futuro próximo, implicou um trabalho conjunto de diversos parceiros, no que respeita, nomeadamente, ao apuramento e sistematização de "competências transformadoras", as quais se traduzem em construtos.

Para que os professores e os directores os incorporem nos currículos que elaboram ao nível da escola, é facultada, em anexo (Anexo 2), uma lista, que se diz não ser exaustiva. Reproduzo abaixo essa lista traduzida, notando o sentido que pode ter cada palavra/expressão bem como o seu conjunto.


‒ Adaptação / Flexibilidade / Ajustamento / Agilidade
‒ Compaixão
‒ Resolução de conflitos
‒ Criatividade / Pensamento criativo / Pensamento inventivo
‒ Pensamento crítico
‒ Curiosidade
‒ Empatia
‒ Envolvimento / Competências de comunicação /Competências de colaboração
‒ Igualdade / Equidade
‒ Mentalidade global
‒ Orientação e finalização por objectivos (por exemplo, determinação, persistência)
‒ Gratidão
‒ Desenvolvimento mental
‒ Esperança
‒ Dignidade humana
‒ Identidade / Identidade espiritual
‒ Integridade
‒ Justiça
‒ Habilidades manuais para a tecnologia da informação e da comunicação (relacionadas com estratégias de aprendizagem)
‒ Habilidades manuais para as artes e ofícios, música e educação física necessárias no futuro
‒ Metacognição (incluindo habilidades de aprender a aprender)
‒ Atenção plena ("mindfulness)
‒ Motivação (por exemplo, para aprender, para contribuir para a sociedade)
‒ Mentalidade aberta (em relação aos outros, a novas ideias e experiences)
‒ Adopção de uma perspectiva e flexibilidade cognitiva
‒ Pro-actividade
‒ Resolução de problemas
‒ Propósito
‒ Pensamento reflexivo / Avaliação / Monitorização
‒ Resiliência / Resistência ao stress
‒ Respeito (por si mesmo, pelos outros, incluindo a diversidade cultural)
‒ Responsabilidade (incluindo o "locus de controlo")
‒ Gestão de riscos
‒ Auto-consciência / Auto-regulação / Auto-controlo
‒ Auto-eficácia / Auto-orientação positiva
‒ Confiança (em si, nos outros, nas instituições)

MANIFESTO PELA CIÊNCIA EM PORTUGAL

Link para o Manifesto pela Ciência em Portugal 2018 que subscrevi:

http://cienciaportugal.org/manifesto2018/

DISCURSO MEU E DE JOSÉ EDUARDO FRANCO POR OCASIÃO DO RECEBIMENTO DO PRÉMIO JOSÉ MARIANO GAGO


Cabe-me agradecer, em meu nome e do José Eduardo Franco, o Prémio José Mariano Gago de divulgação científica, distinção que nos concedeu a Sociedade Portuguesa d Autores –   SPA e que muito nos honra. São vários os motivos que concorrem para a nossa honra: em primeiro lugar, o prémio ter o nome de José Mariano Gago, nosso saudoso Amigo, homem de ciência e de cultura e grande construtor do edifício da ciência em Portugal. O dia do seu aniversário, 16 de Maio, celebrado há pouco é o Dia do Cientista Português, mas também é, curiosamente, o Dia Internacional da Luz, por determinação da UNESCO. Coincidência adequada: Mariano Gago fez luz sobre um país que estava em parte escurecido! Em segundo lugar, o facto de se tratar da primeira edição do prémio, em boa hora instituída pela SPA para que a ciência seja uma parte mais visível da cultura. Em terceiro lugar, porque o Prémio é entregue no Dia do Autor Português, no 93.º aniversário da SPA. A pluralidade e riqueza de autores aqui presentes, alguns deles justamente distinguidos, reflecte bem a imensa variedade e virtuosidade da cultura nacional. Estamos orgulhosos de estar na Vossa companhia.

A Obra que o júri decidiu premiar não é uma, é um conjunto de 30 volumes, dos quais só saíram 8 até à data: “Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa”, saídas sob a égide das Universidades de Coimbra e Aberta e com vários apoios e patrocínios.. Reúne um conjunto selecionado de obras nos mais variados ramos da cultura e do saber que, escritas de raiz na língua portuguesa, inauguraram esses ramos entre nós. São, em 30 volumes, cerca de 80 obras, de praticamente outros tantos autores que vão do século XII ao século XIX. Hoje é o dia deles, não só o dia dos autores actuais mas também o dia dos autores pretéritos sem os quais os actuais não podiam ter feito obra. Como disse o Padre António Vieira:

“Pigmeus nos reconhecemos em comparação daqueles gigantes que olharam antes de nós para as mesmas Escrituras. Eles sem nós viram muito mais do que nós pudéramos ver sem eles, mas nós, como viemos depois deles e sobre eles, pelo benefício do tempo vemos hoje o que eles viram, e um pouco mais. O último degrau da escada não é maior que os outros, antes pode ser menor; mas basta ser o último e estar em cima dos demais, para que dele se possa alcançar o que dos outros se não alcançava.”
in História do Futuro, Obras Completas, Tomo III, Vol I,  Lisboa, CL, 2014, p. 147

O trabalho de edição, que é publicada pelo Círculo de Leitores – muito obrigado ao Círculo pelo seu excelente trabalho, que está em curso - só é possível graças a um enorme esforço interdisciplinar, a cargo de uma vasta equipa interdisciplinar de cerca de 170 investigadores de meia centena de centros de investigação. O prémio é, claro, também deles. E porque o trabalho é colectivo, eu e o José Eduardo Franco decidimos que o valor do prémio fosse entregue ao projecto das “Obras Pioneiras”, de modo a que alguns jovens autores possam ver retribuído de forma justa o seu trabalho. A SPA torna-se assim mecenas da obra, juntando-se a outros como a Fundação Gulbenkian, sem os quais as “Obras Pioneiras” não poderiam ter surgido.

Ciência é cultura, como as “Obras Pioneiras” mostram. Os primeiros versos impressos de Camões vieram à estampa num livro de ciência em português de 1563: “Colóquio dos Simples” de Garcia da Orta,  precisamente uma das “Obras Pioneiras”. Camões canta O fruto daquela Orta onde florescem/ Plantas novas, que os doutos não conhecem,” mostrando que onde cresce a ciência cresce também a arte. Há que divulgar ciência e arte juntas, pois as duas são faces do grande mundo da cultura.

Muito obrigado!
Lisboa, 22 /Maio/2018