sexta-feira, 20 de abril de 2018

VALHA-NOS S. FRANCISCO



Meu artigo no "Diário de Coimbra" de ontem:

Embora o magazine Ticket que anuncia espectáculos em todo o país seja dominado por eventos em Lisboa e Porto, também se encontram eventos noutras cidades. Mas não se encontra nada que tenha lugar no Convento de S. Francisco em Coimbra, um equipamento que custou 42 milhões de euros e que devia ter projecção nacional. Planeado para ser um Centro de Congressos internacional está a falhar esse objectivo, pois a Câmara Municipal, detentora do equipamento, não conseguiu atrair congressos suficientes para garantir a necessária sustentabilidade (uma andorinha de um congresso de saúde não faz a Primavera!). Planeado também para ser um Centro de Cultura nacional, também tem falhado esse outro objectivo pois não existe uma programação coerente nem uma gestão autónoma que a permita concretizar. Pretendendo rivalizar com a Casa da Música ou com o Centro Cultural de Belém está muito longe dos padrões de excelência desses centros. Nem sequer chega ao Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz. Recebo os programas desses centros culturais mas nunca recebi informação nenhuma de S. Francisco. Consultado o respectivo website, encontro coisas avulsas, sem suficiente qualidade e acima de tudo sem qualquer coerência. A programação é o que calha, quando calha. Há muitos dias, demasiados dias, em que não calha nada. Valha-nos S. Francisco!

Vale mais a pena deslocar-me à Casa da Música ou ao Centro Cultural de Belém, ou, mais perto, ao Centro de Artes e Espectáculos do que ao Convento de S. Francisco pois esses centros têm uma programação regular de qualidade, que é divulgada com antecedência. Não percebo por que é que S. Francisco não tem um prospecto semelhante aos que recebo do Porto ou de Lisboa, ou da Figueira da Foz. O problema pode ser da gestão. Têm sido feitos contratos por ajuste directo e a prazo com pessoas do agrado político, que fazem sugestões. Mas tudo tem de ser aprovado pelo Presidente da Câmara. Os preços dos bilhetes são aprovados em reunião camarária, mesmo a posteriori. A cidade, os seus agentes e meios culturais, vivem desligados de S. Francisco. Perguntei já a várias pessoas da área da cultura de Coimbra e nunca ninguém me disse ter sido ouvido sobre S. Francisco. Perguntei a outras pessoas da mesma área em Lisboa e Porto, mas esses nem sequer sabiam o que era S. Francisco. Está à vista o seu fracasso não só como Centro de Congressos internacional mas também como Centro de Cultura nacional. Se falha nos congressos e na cultura para que serve? Parece que tem lá havido reuniões políticas: não sei se o aluguer foi pago, pois as contas de S. Francisco estão nos segredos dos deuses.

Coimbra tem, de facto um belo equipamento da autoria de um prestigiado arquitecto, mas é como se o não tivesse pois não o valoriza. O objectivo de S. Francisco é indefinido (as frases sobre a missão no website são absolutamente vazias). O modelo de gestão também não foi definido. E o elefante branco vai consumindo elevados recursos da Câmara, quer dizer de nós todos, sem que haja um benefício claro para todos. Coimbra continua uma cidade com história e património, mas sem uma identidade cultural que ligue o antigo e o moderno.

A última noticia sobre S. Francisco é que a Câmara de Coimbra quer lá colocar a colecção de fotografia do Novo Banco. O governo, de posse de um grande espólio fotográfico e sem saber o que fazer com ele, quer emprestá-lo à Câmara e esta, sem pensar, estendeu logo a mão ávida da esmola. Com certeza que a cidade, que tem a rica tradição dos Encontros de Fotografia realizados entre 1980 e 2000, pode exibir esse espólio, atraindo público da cidade e de fora. Mas o Convento de S. Francisco não foi feito para museu de fotografia e não tem as condições técnicas adequadas. A colecção nem sequer lá cabe. Para caber uma parte as mudanças estruturais seriam demasiado caras. De resto, a Câmara faria mal em gastar o seu dinheiro nisso quando não consegue manter a valiosa colecção dos Encontros de Fotografia, que está armazenado num exíguo espaço do Centro de Artes Visuais (CAV) sem ar condicionado e à mercê de infiltrações de água. Parece que o Secretário de Estado da Cultura, quando já sabia que o CAV estava condenado em primeira instância, foi visitá-lo como se nada soubesse. Ainda não se sabe se lhe vai dar os meios necessários para ele que a colecção possa ser não só mantida como mostrada.

Será que a Câmara vai pedir ao CAV para fazer a curadoria da mostra do Novo Banco? Será decerto necessário alguém competente que saiba organizar as fotografias do Novo Banco numa rede de salas que abranja a cidade e a universidade, como fizeram os Encontros de Fotografia e está agora fazer a Estação Imagem, uma iniciativa que desfruta do louvável apoio da Câmara de Coimbra. A Câmara tem feito tanta coisa mal na cultura que temos de lançar um foguete quando faz uma bem. Um foguete? Meio, pois “esqueceu-se” de associar os média locais…
*Professor da Universidade de Coimbra

BIOEMPREENDORISMO

quarta-feira, 18 de abril de 2018

OS NOSSOS "PERFIS SOMBRA"

Não precisamos de ter facebook para que lá constem informações sobre nós e, claro está, para que essas informações sejam recuperadas e agrupadas, constituindo o que se designa por "perfis sombra". Assim, potencialmente toda a gente está nessa rede. Não é legal nem é moral, mas faz-se. Eis o que o criador do facebook diz sobre o assunto:


Alguns artigos interessantes sobre o assunto podem ser encontrados AQUI, AQUIAQUI

segunda-feira, 16 de abril de 2018

O PAPÃO DA MATEMÁTICA


Matemática é raciocínio puro, aristotélico, límpido, e o cérebro humano do século XXI, com milhões de anos de apuramento, excluídos os casos de deficiências clinicamente reconhecidas, tem plenas capacidades para se envolver com ela, com as suas regras e os seus símbolos.

Isto para dizer, preto no branco, que o insucesso de um aluno em matemática (como em outra qualquer disciplina), partindo do princípio não estar diminuído nas suas faculdades cerebrais ou perturbado por problemas comportamentais, só pode ser da responsabilidade do sistema educativo e/ou de quem lhe ministra o ensino.

“- A matemática é como uma escada que se sobe, degrau a degrau, desde o primeiro até ao mais alto que se puder”. - Disse-me o meu professor, do segundo 7.º ano do Liceu (o actual 11.º), que tive de repetir, após reprovação no exame final do ano lectivo anterior.

A geologia, ramo do conhecimento no qual desenvolvi toda a minha actividade docente e de investigação, percorre muitos dos seus caminhos de mãos dadas com diversos domínios da matemática (trigonometria, cálculo diferencial, integral, vectorial e tensorial, mecânica, probabilidades, erros e estatística, entre os mais utilizados). Áreas de investigação como cristalografia, tectónica, geofísica, petrologia, geoquímica e sedimentologia não prescindem de uma ou outra destas ferramentas. Estou, pois à vontade para afirmar que, entre nós, povo, na grande maioria, inculto nesta e em muitas outras coisas do saber científico, generalizou-se uma injustificável vénia pela matemática, vénia que atesta este mesmo lamentável padrão nacional.

Nem sempre gostei de matemática. Aprendi a tabuada com a minha mãe que, enquanto costurava, me mandava recitá-la desde o dois vezes dois, quatro, ao nove vezes nove, oitenta e um, numa cantilena de que a minha geração se lembra com saudade. Na escola primária, vá que não vá, a aritmética e a geometria prenderam a minha atenção e até gostei de fazer aqueles problemas complicados, na 4.ª classe (4.º ano), de um tanque com 6,50 m de comprimento por 3, 20 m de largura e 1,75 m de fundo, recebe água de uma torneira, à razão de 7,5 litros por minuto. Quanto tempo demora este tanque a encher, até transbordar?

Mas no Liceu as coisas não correram tão bem, certamente por culpa minha, mas também, seguramente, por deficiência do professor que me coube em sorte, que me não soube abrir o caminho e estimular o suficiente e o necessário. Neste contexto, fui um aluno sofrível até ao 7.º ano (o actual 11.º), transitando de ano para sempre coxo, sem alegria e a muito custo como dizia o meu pai. E, como era previsível, nesse último ano, tive boas notas em todas as disciplinas, mas chumbei em matemática. E foi o melhor que me podia ter acontecido. Fiquei um ano a repetir esta matéria, mas desta vez, com um professor a sério, digno desse nome. Este, sim, um verdadeiro mestre a ensinar e a cativar os alunos. Era algarvio e, logo nas primeiras aulas, o Dr. Seruca procurou avaliar a bagagem dos seus novos alunos e eu era um deles.

- Se não souberes bem e se não te familiarizares com as bases da matemática, que são as coisas mais simples deste mundo, nunca gostarás desta disciplina. Pelo contrário, se aprenderes a lidar tu cá, tu lá com elas, irás ver que a matemática é como o ar que se respira. – E continuou. – A matemática é como uma escada que se sobe, degrau a degrau, desde o primeiro até ao mais alto que se puder.

Na sequência desta conversa que, só por si, me predispôs a encetar uma nova maneira de ser aluno, passei a sentir prazer nas aulas deste professor. Voltei, por assim dizer, ao rés-do-chão da matemática e, encorajado e acompanhado por ele, fui subindo essa escada, ao longo desse ano, até ao patamar que, em cumprimento do programa, me era exigido. E passei no exame com uma boa nota que, associada ás obtidas nas outras disciplinas, me dispensaram do exame de admissão à Faculdade.

A. Galopim de Carvalho

PRÉMIOS UNICÓRNIO VOADOR: RTP1, MANUEL PINTO COELHO E FACULDADE DE FARMÁCIA DE COIMBRA

Já foram atribuídos pela Comcept os Prémios Unicórnio Voador, que distinguem o "melhor do pior": ver aqui.

domingo, 15 de abril de 2018

Bárbara Pinho venceu FameLab Portugal 2018


Bárbara Pinho, da Universidade de Aveiro, venceu a edição do famelab de 2018, onde fui membro do júri. A final deste concurso esta ano com a maior participação de sempre realizou-se no Coliseu dos Recreios no quadro da National Geographic Summit, uma vez que a National Geographic juntou-se ao British Council e ao Ciência Viva como coorganizor,. A Bárbara vai agora representar Portugal na final internacional em Cheltenham, no Reino Unido.

"Transmitir o melhor da Humanidade para que a Humanidade seja melhor"

Minha decelarações à Agência Ecclesia, realizadas no domingo passado no Meeting Lisboa, realizado no CCB em Belém: aqui.

sábado, 14 de abril de 2018

Tecnologia versus Humanidade

Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor

22 e 23 abril | Coimbra
Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor

Na sequência da expansão do Plano Nacional de Leitura (PNL2027), compete à área da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior o desenvolvimento de uma política integrada de promoção da leitura e da escrita e das múltiplas literacias, nomeadamente, a científica e a digital (PNL-CTES).

Pelo alargamento dos agentes envolvidos, do público-alvo, das áreas cobertas, das metodologias adotadas e dos meios e suportes requeridos, o PNL2027 assume uma nova ambição configurada num vasto quadro de ações e projetos de grande impacto para a literacia nacional, na convicção de que uma boa capacidade de usar a escrita e a leitura é determinante de uma mais profunda aquisição de conhecimento e de uma melhor e mais ativa intervenção na sociedade.

O Plano PNL-CTES “Ler+ Ciência, Ler+ no Superior” reflete o compromisso assumido pela área governativa da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, através de um conjunto de iniciativas que abrangem diversos públicos. O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor é assinalado através deste programa.

PROGRAMA
Dia 22
10:00 | Explorastórias : “Uma última carta”
Exploratório - Centro Ciência Viva de Coimbra
Um programa pensado para os mais pequenos, onde as histórias são o ponto de partida para explorar a ciência escondida entre páginas. Neste livro de Antonis Papatheodoulou e Iris Samartzi, recuamos no tempo, para uma época em que as notícias viajavam a pé e as mensagens podiam ser secretas.

Dia 23
14:00 | Eça de Queirós e a ciência: um olhar sobre Darwin
Rómulo - Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra
Carlos Fiolhais, físico e comunicador de ciência, conduz uma discussão sobre a ciência na obra de Eça de Queirós, com referência à teoria da evolução de Charles Darwin, autor do livro “A Origem das Espécies”, que levantou desde logo a polémica: seria o homem descendente do macaco?


16:00 | LER+ CIÊNCIA
Museu Machado de Castro
Apresentação do projeto Ler+ Ciência, a assinalar o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor
INTERVENÇÕES
• Ana Alcoforado | Museu Machado de Castro
• Teresa Calçada | Comissária do PNL 2027
• Cristina Robalo Cordeiro | Representante do MCTES no PNL 2027
• Fernanda Rollo | Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

LEITURAS CRUZADAS
Natália Luíza, do Teatro Meridional, animará uma sessão com uma vertente essencialmente lúdica, envolvendo o público na comunicação de diferentes textos, poéticos ou de prosa, e que articulem conteúdos no âmbito da educação, ciência e tecnologia.

21:00 | OCUPAÇ ÃO LITERÁRIA FEMINISTA
Salão Brazil
As Ocupações Literárias da Secção de Escrita e Leitura da Associação Académica de Coimbra (SESLA) são intervenções artístico-literárias em diálogo com a cidade por meio dos seus espaços e das suas memórias, estimulando a sensibilidade dos ouvintes a partir de peças sonoras, projeções visuais e performances corporais que acompanham a leitura de textos.

Com o apoio do Museu Machado de Castro

"CIÊNCIA E SEUS INIMIGOS" EM AVEIRO


CLASSICA DIGITALIA - 10 Anos e Nova Biblioteca Digital

Mensagem recebida de Delfim Leão, director da Imprensa da Universidae de Coimbra:



Numa altura em que os Classica Digitalia celebram 10 anos de existência, temos o gosto de dar a conhecer o novo sítio da biblioteca digital, que agrega 256 livros, distribuídos por 12 subséries e 3 publicações periódicas, em acesso aberto:


Agradecemos aos cerca de 1.000 Investigadores (autores e revisores das mais diversas geografias) que contribuíram de forma determinante para dar vida a este projeto comum.

Obrigado também pela atenção com que nos acompanharam. A biblioteca é agora inteiramente vossa: consultem, desfrutem, partilhem.

Votos de boas leituras,
Delfim Leão

Poções e Paixões – Química e Ópera



O autor João Paulo André, professor de Química na Universidade do Minho, apresenta o seu mais recente livro "Poções e Paixões" (Gradiva, colecção Ciência Aberta) com extractos e links par algumas óperas (em cima a Madama Butterfly):

“Como pode uma história ficcional, consubstanciada pelas acções que decorrem em cena, encantar e emocionar intensamente uma audiência? A verdade é que, ao sermos conduzidos pelos actores ao âmago de um enredo, entramos numa permuta emocional activa em que partilhamos os problemas dos personagens, sentindo e vivendo as metamorfoses das suas emoções e os seus conflitos. Em suma, estabelecemos empatia com os personagens da narrativa.


Madama Butterfly de Puccini

O que acabou de ser exposto poderá ser ilustrado com a ópera Madama Butterfly (1904) de Puccini. Ao apercebermo‑nos da tristeza e das saudades que Cio‑Cio‑San sente por Pinkerton, o marido que há muito a abandonou, estabelecemos com ela uma relação de empatia e, por isso, sofremos também (mesmo que a soprano que interpreta o papel tenha quarenta e cinco anos, ou seja, o triplo da idade do personagem que encarna - o que, de resto, é bastante comum).


Cartaz de Leopoldo Metlicovitz para a estreia de Madama Butterfly

A empatia tem na verdade uma base neuropsicológica, a qual reside nos sistemas de neurónios-espelho. Eles constituem a parte do nosso sistema nervoso que nos permite reconhecer e simular mentalmente uma acção que observamos, contribuindo, assim, para que se atenuem certas fronteiras entre nós e os outros. Em nós, humanos, esses sistemas neuronais encontram‑se localizados sobretudo nas áreas cerebrais envolvidas no processamento da linguagem e na interpretação de expressões faciais - aspectos que são essenciais na arte dramática.”

(Excerto do preâmbulo)

Carmen de Bizet


“No I acto de Carmen (1875) de Bizet, as cigarreras saem da fábrica de tabaco com o charuto nos dentes e, rebolando as ancas, elogiam a natureza sedutora do fumo. Por sua vez, os voyeurs e pretendentes que as aguardam também fumam para matar o tempo («On fume, on jase...»). A quem não passou despercebido o conteúdo deste coro, conhecido como «La fumée», e muito em particular os versos «Sobe suavemente à cabeça, e, lentamente, / Deixa a alma em festa!», foi a uma agência governamental australiana, de seu nome Healthway (!), que imediatamente suspendeu o financiamento de uma produção da ópera que a West Australian Opera iria levar à cena em 2014. O argumento apresentado foi o de a obra de Bizet fomentar de forma explícita o tabagismo”.

(Excerto do capítulo 5)



            
Planta do tabaco e estrutura molecular da nicotina



Francesca da Rimini de Zandonai 

“Para além das hormonas sexuais existem também as «substâncias do amor romântico», que desempenham um papel determinante no processo de uma pessoa se apaixonar por outra. Trata‑se de monoaminas biogénicas que funcionam como neurotransmissores cerebrais. Uma delas, a β‑feniletilamina, é um autêntico «Eros químico» que acelera o fluxo de informação entre os neurónios, levando a um aumento dos níveis de dopamina. Julga‑se que a β‑feniletilamina será a substância envolvida na reacção do «amor à primeira vista», estando também associada à fase da paixão e do enamoramento.

Entre muitos exemplos clássicos de «amores à primeira vista», poderá citar‑se o caso de Paolo e Francesca, personagens históricos da Itália medieval cuja paixão arrebatadora é relatada na Divina Comédia de Dante Alighieri (canto v de O Inferno - o par amoroso, condenado pelo pecado da luxúria, encontra‑se no segundo círculo do Inferno, chicoteado incessantemente por um redemoinho de vento).

Sob o título de Francesca da Rimini, os amores de Paolo e Francesca foram colocados em ópera por Sergei Rachmaninov (1906) e Riccardo Zandonai (1914).


Giovanni Martinelli (Paolo) e Frances Alda (Francesca) em Francesca da Rimini de Zandonai, 1916 (The Metropolitan Opera Archives)

No I acto da versão do compositor italiano, do alto da sua loggia em Ravena, Francesca da Polenta vê chegar o garboso Paolo Malatesta, conhecido como Paolo, il Bello, acreditando ser este o noivo que a família lhe destinara (num arranjo político que uniria as duas famílias). Apaixonam‑se de imediato um pelo outro («Portami nella stanza») mas o que Francesca não sabe é que Paolo se faz passar pelo seu irmão Gianciotto, senhor de Rimini mas com uma deformidade física. A relação proibida de Francesca e Paolo durou uma década, sendo lendário o seu trágico final.

A ópera de Zandonai estará entre as mais belas do século xx, com harmonias raramente encontradas até então num compositor italiano (Puccini à parte), próprias de alguém que não só assimilara a escrita de Wagner como também estava a par das tendências mais recentes, nomeadamente da música de Claude Debussy e de R. Strauss.”
(Excerto do capítulo 9)



Louise de Charpentier 

“O rádio (Ra), elemento químico de número atómico* Z = 88, fora descoberto em 1898, em Paris, por Marie e Pierre Curie, que uns meses antes já tinham encontrado outro novo elemento, o polónio (Po), de número atómico Z = 84. Indirectamente, esta súbita revelação de dois elementos químicos radioactivos era o corolário da descoberta dos raios X pelo alemão Wilhelm Conrad Röntgen, ocorrida apenas três anos antes.

Embora a natureza dos raios X (X de incógnita) e dos raios gama, estes últimos emitidos por espécies radioactivas, não fosse à época conhecida, não tardaria a ser demonstrado que em ambos os casos se trata de radiação electromagnética, exactamente como as luzes da cidade de Paris celebradas na ópera Louise (1900) de Gustave Charpentier (figura 10.2), contemporânea destas geniais descobertas científicas. (No III acto, do alto da colina de Montmartre, os amantes Louise e Julien contemplam apaixonados o clarão grandioso da Cidade‑Luz, que exaltam no dueto «Paris! Cité de force et de lumière! - «Paris! Cidade de força e de luz!»)





Cartaz de Georges Antoine Rochegrosse para a estreia de Louise e espectro electromagnético

Os únicos aspectos que distinguem estas duas formas de radiação relativamente à luz que nos ilumina é não serem perceptíveis aos nossos olhos e terem uma frequência muito superior, sendo consequentemente muito mais energéticas. Só os raios cósmicos as suplantam em energia.
Em Paris tudo começara quando Marie Skłodowska Curie escolheu para tema da tese de doutoramento o estudo das radiações emitidas por compostos de urânio, descobertas dois anos antes por Henri Becquerel.”
(Excerto do capítulo 10)


O mecanismo de trocas altruístas num mundo competitivo

Consulta pública do novo diploma regulador do ensino básico e secundário

Na sequência das alterações curriculares em curso para o ensino básico e secundário, designadas, em termos mais gerais por "Autonomia e flexibilidade curricular", o Conselho de Ministros aprovou na generalidade, no passado dia 5 de Abril, o Decreto-Lei que estabelece os princípios organizadores do currículo dos ensinos básico e secundário (acesso).

Ontem esse diploma foi disponibilizado para consulta pública (que se estende até ao final do mês): acesso.

A fundamentação da revisão do Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho foi também disponibilizada: acesso

Assim, o Ministério da Educação solicita a "todas as escolas e seus professores, as famílias, alunos e demais interessados", a fazer uma análise dos documentos, a qual deve ser expressa em formulário (acesso). 

O texto que acompanha esta solicitação é a seguinte (acesso):
Sabendo-se que há escolas que têm conseguido contrariar os principais preditores de insucesso, adotando soluções adequadas aos contextos e necessidades específicas dos alunos, é fundamental que todas tenham liberdade para poderem desenvolver o currículo localmente, com autonomia plena para a organização de tempos, de espaços e de formas de ensinar mais eficazes, potenciando melhores aprendizagens para todos. A autonomia e a flexibilidade permitirão soluções de inovação pedagógica, necessárias enquanto instrumentos para o desenvolvimento de aprendizagens de qualidade e que sejam respostas efetivas às necessidades de todos os alunos. 
Na assunção de que uma reflexão participada é fundamental para garantir a qualidade que a natureza da matéria exige e que o envolvimento efetivo de todos os parceiros constitui exercício de participação democrática indispensável à construção de compromissos, o Ministério da Educação dá início a um período de consulta pública. 

A "narrativa" - 1. "Não é preciso uma escola ou um professor para adquirir conhecimento"

Em texto anterior, reproduzi parte de uma entrevista a Alberto Rojo, um professor de música espanhol que tem analisado de uma maneira muito inteligente e profunda a orientação das políticas de ensino. Nessa análise denuncia o que designa por "gurus da educação", pessoas que, em geral, não têm formação em pedagogia, ensino, aprendizagem ou cuja formação nessas áreas é muito superficial mas que, não obstante, pronunciam-se muito afirmativamente sobre elas. 

É frequente esses "gurus" serem académicos ou práticos bem sucedidos e terem ligações a órgãos internacionais com uma forte palavra na orientação do currículo escolar e, em simultâneo, a fundações e a empresas da mesma abrangência. Passeiam-se pelo mundo, têm voz nos meios de comunicação social. O seu discurso é muitíssimo atraente e concertado: todos dizem praticamente o mesmo e do mesmo modo. Mobilizam, de facto, a opinião das pessoas desavisadas.

São infindáveis os exemplos. Encontrei hoje mais um traduzido numa entrevista a alguém que está ligado a uma empresa, sendo a iniciativa é de outra empresa. É a escola, os professores e os alunos ao serviço das empresas. 

Transcrevo o que se refere aos professores e também ao conhecimento, os destaques são meus.
O papel do professor tem de mudar, já não se trata do que ensinamos e como ensinamos é que somos na sala de aula. 
Até agora os professores trabalhavam num contexto de escassez de conhecimento. Mas hoje já não é assim. O conhecimento é um produto, é gratuito está em qualquer dispositivo com acesso à internet
Não é preciso uma escola ou um professor para adquirir conhecimento. 
O que é, então, um professor do século XXI? Eu defendo que um bom professor é um instrutor de resultados: instrui os alunos a alcançar os seus melhores resultados. Um bom professor entende o mundo de onde vêm os estudantes e o mundo para o qual os deve preparar. Instrui constantemente os alunos a alcançarem padrões mais elevados.

sexta-feira, 13 de abril de 2018